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Mostrando postagens de 2011

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

O Ano-Novo..

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O frenesi dos últimos dias de um ano é tamanho que parece que se trata do fim de uma era. Como se nas badaladas da meia-noite do dia 31 de dezembro o mundo fosse simplesmente acabar levando com ele tudo de ruim, e ao primeiro minuto do dia primeiro de janeiro surgisse um novo tempo perfeito, de acordo com as expectativas de todos.         O que será que faz as pessoas sentirem que tudo pode ser diferente simplesmente pelo fato do fim de um ano e início de outro? Será que existe a ideia de que possa haver uma combinação cósmica dos astros que fará o mundo girar diferente liberando alguma substância capaz de mudar o que não podem fazer por si só? Pode ser. Mas o que fica esquecido, ou talvez não lembrado, é que a cada dia nasce uma nova oportunidade de fazer acontecer. Não é preciso esperar o primeiro de janeiro.         O Ano-Novo, tão comemorado e saudado, não acabará com as dificuldades nem tão pouco trará o mila...

O que acontece no meio...

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Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa. No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.  Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos. No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se faze...

Ama é para poucos...

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A capacidade de amar, assim como a coragem ou a inteligência, não é do mesmo tamanho em todos nós. Eu sou forçado a lembrar disso todo vez que converso com S., uma amiga de Brasília que é, possivelmente, a mulher mais apaixonada do mundo. Quando falamos, na semana passada, ela estava em preparativos para um novo casamento. Conheceu o rapaz há poucos meses, está profundamente envolvida e, sem temor aparente, se prepara para iniciar uma vida comum. Não é a primeira vez que ela faz isso e é provável que não seja a última, mas, assim como no passado, avança para o casamento com a convicção tranquila de que, se alguma coisa der errada, não será por falta de amor, lealdade e dedicação da parte dela. Ao contrário da minha amiga, que tem uma facilidade até exagerada de se vincular, muitos de nós sofremos do oposto: uma enorme dificuldade em criar ligações profundas e verdadeiras. O sintoma mais comum é que vivemos atormentados por dúvidas sobre a intensidade e a profundidade dos nossos senti...

Medo de amar?

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Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe por quê. O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte pro...fundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um ...

Aprendendo a viver...

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Aprendi que se aprende errando. Que crescer não significa fazer aniversário. Que o silêncio é a melhor resposta, quando se ouve uma bobagem. Que trabalhar significa não só ganhar dinheiro. Que amigos a gente conquista mostrando o que somos. Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim. Que a maldade se esconde atrás de uma bela face. Que não se espera a felicidade chegar, mas se procura por ela. Que quando penso saber de tudo ainda não aprendi nada. Que a Natureza é a coisa mais bela na Vida. Que amar significa se dar por inteiro. Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos. Que se pode conversar com estrelas. Que se pode confessar com a Lua. Que se pode viajar além do infinito. Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde. Que dar um carinho também faz… Que sonhar é preciso. Que se deve ser criança a vida toda. Que nosso ser é livre… Que Deus não proíbe nada em nome do amor. Que o julgamento alheio não é importante. Que o que realment...

O que interessa...

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Não me interessa o que você faz para ganhar a vida. Quero saber o que você deseja ardentemente, se ousa sonhar em atender aquilo pelo qual seu coração anseia. Não me interessa saber a sua idade. Quero saber se você se arriscará a parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo. Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a sua lua. Quero saber se tocou o âmago de sua dor, se as traições da vida o abriram ou se você se tornou murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se pode suportar a dor, minha ou sua, sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se você pode aceitar alegria, minha ou sua; se pode dançar com abandono e deixar que o êxtase o domine até a ponta dos dedos das mãos ou dos pés, sem nos dizer para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos. Não me interessa se a história que me conta é a verdade. Quero saber se consegue desapontar outra pessoa para ser autêntic...

Pra viver um grande amor...

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É preciso abrir todas as portas que fecham o coração. Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo, Por amores do passado que foram em vão É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar. É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós! É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar! É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor… Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura, Aparando as arestas que podem machucar. É como lapidar um diamante bruto…para fazê-lo brilhar! E quando decidir que chegou a sua hora de amar, Lembre-se que é preciso haver identificação de almas! De gostos, de gestos, de pele… No modo de sentir e de pensar! É preciso ver a luz iluminar a aura, Dando uma chance para que o amor te encontre Na suavidade morna de uma noite calma… É preciso se entregar de corpo e alma! É preciso ter dentro do coração um sonho Que se acalenta no desejo de: amar e ser amada! É preciso conhecer no outro o ser tão procur...

Fogo precisa de ar...

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Quantos enganos são cometidos pela idéia do amor romântico. Duas metades que se completam; se ele não for eu não vou; se pintar desejo por outro é porque acabou o amor; ” eu não vivo sem voce” e por aí vai. Vai pro espaço o ar e fica o sufoco, o controle, o desejo reprimido pela culpa. Vai embora o encanto, o mistério, o prazer. E muitas vezes fica o prazer mas perde-se o amor, o companheirismo, a alegria de estar junto. Acredita-se que a fusão do casal seja a realização desse sonho idealizado, tão alimentado pelos nossos contos de fada. Tudo terá que ser feito a dois, partindo do princípio de que cada um é apenas uma metade, que só se completará através do outro. Dissolve-se a identidade de cada parceiro, exatamente aquilo que foi o encanto, a atração. Falta o ar. O fogo arrefece e apaga. Fogo precisa de ar. Não encontraremos a perfeição. Sequer encontramos tudo o que queremos e desejamos em uma única pessoa. Enfim, não temos respostas prontas, nem modelos. Sem script precisamos cr...

O outro que há em nós...

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Todo mundo tem ex, mas nem todos se relacionam com elas (ou eles) da mesma maneira. Boa parte dos homens ao meu redor, por exemplo, parece se dar excepcionalmente bem com as mulheres do passado deles. Falam com elas, jantam com elas, vão a festas com elas. Eu não. Há duas ex que são importantes com quem eu não troco palavra e outras tantas que eu permiti que sumissem. Para meu azar. Se cada uma das pessoas do passado conta um pedaço da nossa vida, há vários pedaços de mim que se perderam. Quando se fica muito tempo com a mesma pessoa, sobretudo quando se é muito jovem, ocorre uma troca imensa e transformadora. Quem teve namoros longos na adolescência sabe como é. A gente cresce, aprende e se forma sob o olhar do outro, com a influência dele. Há o jeito de transar, o jeito de gostar, o jeito de pensar e conversar. Os valores. Somos esponjas e nos embebemos de quem está tão perto num período tão crucial. Logo depois, na juventude, ocorre coisa semelhante. Você dá passos essenciais na v...

Para quem você liga?

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O telefone tocou logo cedo. Era a namorada, chorando. Tivera uma noite de sono ruim, chegara ao trabalho cansada e dera de cara com um problema sério, que parecia insolúvel. Bateu o desespero e ela ligou. Conversamos. Não havia o que fazer além de se acalmar e tentar resolver o caso. Disse isso a ela, juntei umas palavras de carinho e a ligação terminou de forma tranquila, uns minutos depois. Ela só precisava desabafar.  O significado dessa história cotidiana me parece da maior importância: é essencial ter alguém para quem ligar quando estamos aflitos, tristes ou perdidos. É fundamental ter com quem falar quando o mundo a nossa volta desmorona ou parece hostil e desanimador. Mesmo quando estamos felizes diante de uma notícia inesperada, ou de algo por muito tempo aguardado, temos necessidade de falar, contar, dividir. Para quem você liga nessas horas?  Nós damos uma importância enorme – e merecida – ao erotismo e ao romantismo nas nossas relações. Essas coisas são mesmo esse...

Amor Adulto...

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O amor é sempre um mistério. É único, singular. Razões , tais como as entendemos, não explicam e nada dizem sobre o porquê amamos uma pessoa. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, tratando-se de amor adulto e saudável, não é absolutamente gratuito e abnegado, do tipo incondicional, que se sente pelos pais e filhos. Em uma relação amorosa existe um caldeirão em que se misturam diversos ingredientes e a reciprocidade é a colher que permite a burilação de todos eles.  Sem ela, tudo desanda, queima, perde o sabor. Entre tantas pessoas, dois olhares se cruzam e algo acontece. Pode ser apenas um momento efêmero. Pode ser o início de um encontro, de um namoro, de uma paixão. E /ou de um grande amor. Ou de um desencontro, de um engano, de uma decepção. De uma ilusão criada pela sua desesperada ânsia em vestir no sapo as vestes de um príncipe. Como saber? Serenamente… vivendo, conhecendo, percebendo. Desbravando esse universo desconhecido em que se constitui o outro e esse novo par do qual você ...

Tempo Amigo...

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Todas as coisas tem seu tempo, e quase sempre não conseguimos entender isso. Queremos que o tempo seja o nosso, enquadrando-o no espaço das nossas aflições e ansiedades. Atropelando tempo atropelamos vida. Violentamos sonhos que poderiam ter sido reais, não fosse a nossa destemperança. Tempo é aliado não inimigo. É ele que permite a maturação, o desabrochar da verdade. Porque ao tempo a verdade se rende, se revela, seja qual for a sua cor ou suas vestes. À ele a verdade se desnuda, se entrega irremediavelmente… As mentiras contadas ao outro e à nossa consciencia não vencem à prova do tempo. Os enganos com os quais nos deixamos iludir são frágeis cristais que os bons ventos temporais fazem derrubar. Subverter as demandas do tempo é torná-lo sagaz inimigo a devorar vida, sonhos e esperanças. Para usufruir do momento de provar os melhores vinhos, foi necessário a sabedoria e paciência de preparar o solo, até colher as melhores e mais saborosas uvas. Carla Andrea Ziemkiewicz

O Tempo do Amor...

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Olhar parado, a mente viajando por lugares distantes, o trabalho que não rende, a escola que fica em segundo plano, o interesse pelos velhos amigos que diminui, e sobretudo, a vontade intensa de ficar perto de quem está longe, não, não há dúvidas, isso é o amor... No início, o sentimento de posse se torna forte, quase uma obsessão, queremos ver, ter, tocar, beijar, ficar e amar muito, longos papos pelo telefone, e-mails apaixonados, declarações e juras, assim se revela a conquista, aquele jogo do amor, que no fundo, no fundo, é um jogo de interesses pessoais onde ambos querem viver intensamente esse sentimento mágico. Parece que o grande vilão do amor é o tempo, é o conhecimento que acaba fazendo com que as pessoas se revelem como verdadeiramente são, após a conquista, onde cada um é um ator, cada um representa o seu melhor papel, mostrando as qualidades que nem sempre possuem, e é no dia a dia, na convivência após os beijos demorados, que o príncipe vira sapo, e a princesa, apenas ...

Kit básico de sobrevivência...

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Aprendi coisas importantes nessa vida. É como se fosse um kit básico de sobrevivência. Nunca sinta vergonha daqueles que te dão valor. Mostre-os ao mundo. Com certeza você já amou alguém que fez com que seu mundo caísse e com certeza o valor que você deu foi muito superior ao que recebeu. Não se preocupe, isso acontece. É regra. Mas quando você tá no chão, achando que não tem mais jeito e que tudo tá perdido, de repente acontece o que não é de se esperar, você passa a não ver apenas os pés passando por seus olhos, mas também uma mão te levantando e dizendo que vai ficar tudo bem. Essa pessoa não liga se você tá sujo, cego e não se importa se você não tem estrutura pra se reerguer. Ela acredita em você e quer te ver de pé. É um momento difícil e seu único pensamento deve ser você mesmo. Cuide do seu jardim para que venham as borboletas e, quando elas chegarem, não as escondam porque em um mundo preto e branco elas são as únicas coloridas. Balance seus pés em um penhasco mas não olhe ...

DOR FÍSICA X DOR EMOCIONAL

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 O maior medo do ser humano, depois do medo da morte, é o medo da dor. Dor física: um corte, uma picada, uma ardência, uma distenção, uma fratura, uma cárie. Dor que só cessa com analgésico, no caso de ser uma dor comum, ou com morfina, quando é uma dor insuportável. Mas é a dor emocional a mais temível, porque essa não tem medicamento que dê jeito. Uma vez, conversando com uma amiga, ficamos nessa discussão por horas: o que é mais dolorido, ter o braço quebrado ou o coração? Uma pessoa que foi rejeitada pelo seu amor sofre menos ou mais do que quem levou 20 pontos no supercílio? Dores absolutamente diferentes. Eu acho que dói mais a dor emocional, aquela que sangra por dentro. Qualquer mãe preferiria ter úlcera para o resto da vida do que conviver com o vazio causado pela morte de um filho. As estatísticas não mentem: é mais fácil ser atingida por uma depressão do que por uma bala perdida. Existe médico para baixo astral? Psicanalistas. E remédio? Anti-depressivos. Funcionam? Func...

Você tem inveja de quem??

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A constatação é inevitável: há sempre alguém mais alto, mais bonito ou mais inteligente do que cada um de nós. Na infância a gente descobre, sem prazer nenhum, que a criança ao lado parece atrair todas as atenções. Na adolescência há o cara, ou a menina, por quem metade da escola é apaixonada. Mesmo na vida adulta – quando a racionalidade deveria nos ajudar – o drama continua e se amplia. O terreno da competição (e da dor) tornou-se maior: aquele sujeito é promovido todo ano, aquela outra arruma um namorado por mês, fulano é adorado por todo mundo, sicrana viaja todo ano para lugares incríveis… A coisa não para. Sempre haverá um motivo, sempre haverá alguém para nos causar inveja. Dentro dos relacionamentos não é diferente. Eu consigo pensar, com base nos meus próprios e mesquinhos sentimentos, em pelo menos duas maneiras pelas quais a inveja pode se meter na vida dos casais – uma externa, bem óbvia, e outra interna, na qual se presta menos atenção. A situação óbvia é a inveja pel...

Apaixonar-se é possível...

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Por que as pessoas se apaixonam? Nos últimos dias eu tenho pensado nisso: por que algumas pessoas, e não outras, nos cativam? Homens e mulheres são atraídos uns pelos outros o tempo inteiro, por diversas razões. Umas pessoas são bonitas, outras são sensuais, algumas têm carisma. Mas poucas causam impacto. Por alguma razão, a graça desaparece e com ela o desejo de rever. Essa é a regra nas grandes cidades: tentativa e erro. Aquilo que os cínicos chamam de mercado e os pessimistas de selva. Outro dia alguém me disse um nome novo: prateleira. Acabou o namoro, estava na prateleira. Tipo sucrilhos. As mulheres se queixam disso. Sentem-se usadas. O sujeito se esforça em seduzir, é todo gentilezas, desdobra-se em safadezas e, dias depois – às vezes, horas ou minutos depois – veste a calça e some para nunca mais ser visto. Tudo isso parece premeditado. Mas eu posso atestar, tendo ouvido centenas de depoimentos espontâneos, que o homem está sinceramente empolgado quando faz a corte. Mas...

Encontro com o passado...

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Nem sempre o passado provoca nostalgia. Às vezes, dar de cara com ele só traz alívio. O sujeito está lá, feliz com a sua vida, quando recebe pela internet a foto de uma ex de olhos siderados, copo na mão, enroscada num cara no meio da balada. Ao ver as formas e o rosto conhecido, ele instantaneamente leva a mão à boca, num gesto de susto e autocomiseração. Mas isso dura menos de um segundo. É tempo suficiente para ele lembrar que não tem mais nada a ver com aquilo – que aquele furacão de álcool e extravagância já não é mais da conta dele. Com um suspiro de gratidão indefinida, ele observa a imagem na tela enquanto lembra que a moça, embora linda e arrebatadora, era uma dor de cabeça que não dói mais nele. Quem é capaz de se identificar com essa história? Eu sou. E acho que muitos serão. Cada um de nós já teve experiências de convívio carregadas de ambiguidade. Você gosta da pessoa, às vezes ama, mas, junto com as coisas que você deseja ou admira nela, percebe traços de personalidade,...

Quando o amor é distração...

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Depois de algum tempo, que varia de pessoa para pessoa, é inevitável que a gente tenha a sensação que já fez de tudo e que a vida – aquela de todos os dias, ano após ano – está se repetindo. Quando eu tinha 17 anos, um dos meus melhores amigos, um ano apenas mais velho do que eu, decidiu se casar. Durante a conversa que tivemos sobre isso, argumentei que a decisão era pra lá de precoce, mas ele respondeu, cheio de si: “Eu sinto que já fiz de tudo.” Os tempos mudam, mas algumas coisas permanecem. Nos anos 70, quando essa conversa aconteceu, havia pressa entre os garotos em tornar-se homens. Para alguns, como esse amigo, mais conservadores, isso se dava por meio do casamento. Você provava ao mundo e a si mesmo que havia crescido ao entrar na igreja e ter um filho, preferencialmente com um intervalo de alguns meses entre uma coisa e outra. Hoje em dia talvez seja o contrário. Há uma determinação coletiva em esticar a adolescência além do limite razoável. A sensação predominante, aquilo...

O amor bom é facinho...

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Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade? Eu suspeito que não. Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói. Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade d...
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"Em muitos trechos do caminho, às vezes bem longos, carregamos muito peso na alma sem também notar. A gente se acostuma muito fácil às circunstâncias difíceis que às vezes podem ser mudadas. A gente se adapta demais ao que faz nossos olhos brilharem menos. A gente camufla a exaustão. A gente inventa inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento acústico para evitar ouvi-lo. A gente faz de conta que a vida é assim mesmo e ponto. A gente arrasta bolas de ferro e faz de conta que carrega pétalas só pra não precisar fazer contato com as nossas insatisfações e agir para transformá-las. A gente carrega tanto peso, no sentimento, um bocado de vezes, porque resiste à mudança o máximo que consegue, até o dia em que a alma, cansada de não ser olhada, encontra o seu jeito de ser vista e de dizer quem é que manda. Eu fiquei pensando no que esse peso todo, silenciosamente, faz com a alma. No que isso faz com os sonhos mais bonitos e charmosos e arejados. No que isso, capítulo a...

Alguém Especial...

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  É isso que você quer – ou um monte de gente basta?   “Ficar com muita gente é fácil”, diz um amigo meu, com pouco mais de 25 anos. “Difícil é achar alguém especial”. Faz algum tempo que tivemos essa conversa. Ele tentava me explicar por que, em meio a tantas garotas bonitas, a tantas baladas e viagens, ele não se decidia a namorar. Ele não disse que estava sobrando mulher. Não disse que seria um desperdício escolher apenas uma. Não falou em aproveitar a juventude ou o momento e nem alegou que teria dificuldade em escolher. Disse apenas que é difícil achar alguém especial. Na hora, parado com ele na porta do elevador, aquilo me pareceu apenas uma desculpa para quem, afinal, está curtindo a abundância. Foi depois que eu vim a pensar que existe mesmo gente especial, e que é difícil topar com uma delas. Claro, o mundo está cheio de gente bonita. Também há pessoas disponíveis para quase tudo, de sexo a asa delta. Para encontrar gente animada, basta ir ao bar, descobrir a balad...

Esse Mistério...

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Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente se encante tanto por outra vida. E sinta vontade de escrever poemas. Garimpar estrelas. Deixar florir pelo corpo os sorrisos que nascem no coração. Nesse mistério que nos faz olhar a mesma imagem inúmeras vezes, sem cansaço, seja ela feita de papel ou de memória. Que nos faz respirar feliz que nem folha orvalhada. Querer caber, com frequência, no mesmo metro quadrado onde a tal vida está. Cantarolar pela rua aquela canção que a gente não tinha a mínima ideia de que lembrava. Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente encontre essa vida na multidão planetária de bilhões de outras. E sem saber que ela existia, perceba ao encontrá-la que sentia saudade dela antes de conhecê-la. Estive pensando nesse mistério que faz com que aquela vida que acaba de encontrar a nossa nos deixe com a impressão de estar no nosso caminho desde sempre, como se fosse um sol que esteve o tempo todo ali e a gente somente não o o...

Quase...

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Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar...

Quando o tesão da vida anda morno...

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"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador (...) O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia." ( Martha Medeiros) Estive pensando hoje sobre o quanto a gente se permite amornar a vida. Quase conseguimos o emprego dos sonhos, faltaram dois pontos para passar naquele concurso, estivemos à beira de cometer uma loucura deliciosa por amor, perdemos três dos cinco quilos em excesso, compramos a casa que era quase igual a que desejávamos, saímos sempre cinco dos dez minutos necessários para não pegar fila no trânsito, demos um "quase perfeito" ao encontro romântico, enfim, aprendemos que quase nada sai como planejamos e nos conformamos com a pilha de frustrações que vamos acumulando nas quatro paredes que dividem conos...