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Mostrando postagens de junho, 2011

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

O que é ser Mal - Amado?

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    Antes de adentrar no universo temático a que me propus, considero importante fazer uma pequena explanação a respeito do prefixo latino mal- , que significa: maldade, desgraça, imperfeição. É a partir dele que podemos interpretar a expressão tão conhecida “mal-amado(a)” e que traduz um tipo de relacionamento que pode se tornar vicioso caso não haja, por parte do “infectado”, a dissipação dessa prática sobre si. Tanto homens quanto mulheres podem permitir-se ser mal-amados, seja por um tempo ou por uma vida toda. Ser mal-amado(a) não é sinônimo de ser carente ou solitário(a), como a maioria pensa, é ser mal gostado(a), mal desejado(a), mal querido(a). É um jeito torto de ser (licenciosamente) amado(a). Permanecer nessa realidade depende do quanto vale e pesa a auto-estima. Uma pessoa mal-amada é aquela que tem um amor ruim, defeituoso, que leva anos para se formar ou para se dissipar. A verdade é que já evoluímos muito nos nossos relacionamentos, porém estagnamos na padron...

Quem é dono de quem?

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  Segundo os especialistas em psicologia social, o ser humano é dotado de seis diferentes tipos de amor: altruísta, romântico, lúdico, pragmático, possessivo e cooperativo. Acredito que um dos tipos de amor mais perigoso é o amor possessivo - aquele que aprisiona, conduz, direciona as emoções conforme a sua vontade e determinação. Pior do que isso, de acordo com a sua visão de amor. Uma pessoa que entende o outro como propriedade é incompetente para construir qualquer relação. Ela é portadora do amor que sufoca, que angustia. É o amor dependente, que só se satisfaz com a total dedicação do(a) parceiro(a) em todas as situações, desde as mais simples até as mais complexas. É o amor egoísta, chantagista, que torna o relacionamento pesado e tóxico. É claro que ninguém saberá como vai agir diante do amor já que este foge a regras e explicações, também é improvável que alguém consiga medir a intensidade dos seus sentimentos e tente equilibrá-la para mais ou para menos a fim de atingir u...

Mudança...

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"Quando nos dedicamos, com o coração, à busca do autoconhecimento, é inevitável que chegue um instante em que algumas mentiras que contávamos para nós mesmos passem a não funcionar mais. Os disfarces até então utilizados para fortalecer o nosso autoengano já não nos servem. Inábeis com a paisagem aos poucos revelada, às vezes ainda tentamos nos apegar a alguma coisa que possa encobrir a nossa lucidez, embaraçados que costumamos ser com as novidades, por mais libertadoras que sejam. É em vão. Impossível devolver a linha ao novelo depois que a consciência já teceu novos caminhos. Existem portas que se desmancham após serem atravessadas, como sonhos que se dissolvem ao acordarmos. Não há como retornar ao lugar onde a nossa vida dormia antes de cruzá-las. Da estreiteza à expansão. Da semente à flor. Do casulo às asas, nos ensinam as borboletas." Ana Jácomo

Quantas vezes assassinei o amor ?

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  "O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa. Morre porque o matamos ou o deixamos morrer. Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença. Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia. Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados. O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos. Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento. O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida. O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada. Repassei os olhos pelos meus n...

Amor

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Nietzsche dizia que quando alguém decide se casar, a pergunta mais importante que deveria se fazer é: "Terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?" Junho chegou e trouxe a tiracolo a data comercial do amor: o Dia dos Namorados. Não se ouve falar de outra coisa (além do ministro Palocci, obviamente): TV's e revistas estampam vitrines de lingeries, perfumes, bombons e flores, num convite a demonstrações financeiras do sentimento supremo. Mas, ainda que seja muito bom dar e ganhar presentes, será que são realmente indispensáveis para o amor? E numa data específica? Depois de uma certa idade - e não exatamente avançada - você conclui que experiência não se transmite. E quando se trata de relações afetivas, essa percepção fica ainda mais evidente. Não dá, por exemplo, para dizer para alguém apaixonado que 'um amor e uma cabana' são coisas de romance - livro, filme e novela - e que, quando a realidade vem com contas a pagar e filhos pra criar, se ...

O contrário do amor

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  O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro. Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia,...

VAMPIROS...

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Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo. Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à di...

TER OU NÃO TER NAMORADO

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Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou dr...

O que é, afinal, essa tal felicidade?

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    Estive, por esses dias, com uma frase do Freud na cabeça que, de certa maneira, impulsionou a produção deste texto. Ela diz: “ A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz ”. Pensando, genericamente, a teoria freudiana faz todo o sentido. Porém, considerando que, erroneamente, buscamos a felicidade no outro, se esta destoar da nossa, como seremos felizes? Acredito que a estranheza nas relações se dê pela diferença de expectativa que ambos constroem mentalmente. Somos dotados de vontades, instintos, emoções, que despertam de maneira peculiar, especialmente se atentarmos para a sexualidade de cada ser. Homens são mais objetivos e não escondem o que sentem e pensam, seja nos trâmites profissionais ou nos seus relacionamentos. Já as mulheres, cheias de sensações complexas e unilaterais, enfrentam dificuldade em traduzir o que querem ou esperam em determinada situação do seu envolvimento amoroso. É muito...

Foda-se

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O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. "Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é...

Viver de Saudade...

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    Saudade... Por diversas vezes pensei nesta palavra como sendo das mais melodiosas e bonitas de nossa língua. Mas não estive pensando só na sua fonética, mas também em seu significado. Saudade é um sentimento que aperta o coração por resgatar as coisas boas e significativas e que não voltam mais. Porém, ela aparece na maioria das vezes num momento em que estamos meio enfraquecidos, num momento de insatisfação, de algo que não está bem. Oh! Que saudades que tenho / Da aurora de minha vida / Da minha infância querida / Que os anos não trazem mais! Senti saudades de minha infância, quando passei por situações em que eu precisava crescer;  por  situações em que precisava ser forte, ter meus filhos, ser madura. Sinto saudades dos períodos em que fui protegida, que não precisava tomar decisões; quando ainda não me dava conta de que a vida  apronta e nos coloca diante do desconhecido. Sinto saudades da minha infância; nela, ainda não sabia o que signif...