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Mostrando postagens de setembro, 2011

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

DOR FÍSICA X DOR EMOCIONAL

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 O maior medo do ser humano, depois do medo da morte, é o medo da dor. Dor física: um corte, uma picada, uma ardência, uma distenção, uma fratura, uma cárie. Dor que só cessa com analgésico, no caso de ser uma dor comum, ou com morfina, quando é uma dor insuportável. Mas é a dor emocional a mais temível, porque essa não tem medicamento que dê jeito. Uma vez, conversando com uma amiga, ficamos nessa discussão por horas: o que é mais dolorido, ter o braço quebrado ou o coração? Uma pessoa que foi rejeitada pelo seu amor sofre menos ou mais do que quem levou 20 pontos no supercílio? Dores absolutamente diferentes. Eu acho que dói mais a dor emocional, aquela que sangra por dentro. Qualquer mãe preferiria ter úlcera para o resto da vida do que conviver com o vazio causado pela morte de um filho. As estatísticas não mentem: é mais fácil ser atingida por uma depressão do que por uma bala perdida. Existe médico para baixo astral? Psicanalistas. E remédio? Anti-depressivos. Funcionam? Func...

Você tem inveja de quem??

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A constatação é inevitável: há sempre alguém mais alto, mais bonito ou mais inteligente do que cada um de nós. Na infância a gente descobre, sem prazer nenhum, que a criança ao lado parece atrair todas as atenções. Na adolescência há o cara, ou a menina, por quem metade da escola é apaixonada. Mesmo na vida adulta – quando a racionalidade deveria nos ajudar – o drama continua e se amplia. O terreno da competição (e da dor) tornou-se maior: aquele sujeito é promovido todo ano, aquela outra arruma um namorado por mês, fulano é adorado por todo mundo, sicrana viaja todo ano para lugares incríveis… A coisa não para. Sempre haverá um motivo, sempre haverá alguém para nos causar inveja. Dentro dos relacionamentos não é diferente. Eu consigo pensar, com base nos meus próprios e mesquinhos sentimentos, em pelo menos duas maneiras pelas quais a inveja pode se meter na vida dos casais – uma externa, bem óbvia, e outra interna, na qual se presta menos atenção. A situação óbvia é a inveja pel...

Apaixonar-se é possível...

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Por que as pessoas se apaixonam? Nos últimos dias eu tenho pensado nisso: por que algumas pessoas, e não outras, nos cativam? Homens e mulheres são atraídos uns pelos outros o tempo inteiro, por diversas razões. Umas pessoas são bonitas, outras são sensuais, algumas têm carisma. Mas poucas causam impacto. Por alguma razão, a graça desaparece e com ela o desejo de rever. Essa é a regra nas grandes cidades: tentativa e erro. Aquilo que os cínicos chamam de mercado e os pessimistas de selva. Outro dia alguém me disse um nome novo: prateleira. Acabou o namoro, estava na prateleira. Tipo sucrilhos. As mulheres se queixam disso. Sentem-se usadas. O sujeito se esforça em seduzir, é todo gentilezas, desdobra-se em safadezas e, dias depois – às vezes, horas ou minutos depois – veste a calça e some para nunca mais ser visto. Tudo isso parece premeditado. Mas eu posso atestar, tendo ouvido centenas de depoimentos espontâneos, que o homem está sinceramente empolgado quando faz a corte. Mas...

Encontro com o passado...

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Nem sempre o passado provoca nostalgia. Às vezes, dar de cara com ele só traz alívio. O sujeito está lá, feliz com a sua vida, quando recebe pela internet a foto de uma ex de olhos siderados, copo na mão, enroscada num cara no meio da balada. Ao ver as formas e o rosto conhecido, ele instantaneamente leva a mão à boca, num gesto de susto e autocomiseração. Mas isso dura menos de um segundo. É tempo suficiente para ele lembrar que não tem mais nada a ver com aquilo – que aquele furacão de álcool e extravagância já não é mais da conta dele. Com um suspiro de gratidão indefinida, ele observa a imagem na tela enquanto lembra que a moça, embora linda e arrebatadora, era uma dor de cabeça que não dói mais nele. Quem é capaz de se identificar com essa história? Eu sou. E acho que muitos serão. Cada um de nós já teve experiências de convívio carregadas de ambiguidade. Você gosta da pessoa, às vezes ama, mas, junto com as coisas que você deseja ou admira nela, percebe traços de personalidade,...

Quando o amor é distração...

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Depois de algum tempo, que varia de pessoa para pessoa, é inevitável que a gente tenha a sensação que já fez de tudo e que a vida – aquela de todos os dias, ano após ano – está se repetindo. Quando eu tinha 17 anos, um dos meus melhores amigos, um ano apenas mais velho do que eu, decidiu se casar. Durante a conversa que tivemos sobre isso, argumentei que a decisão era pra lá de precoce, mas ele respondeu, cheio de si: “Eu sinto que já fiz de tudo.” Os tempos mudam, mas algumas coisas permanecem. Nos anos 70, quando essa conversa aconteceu, havia pressa entre os garotos em tornar-se homens. Para alguns, como esse amigo, mais conservadores, isso se dava por meio do casamento. Você provava ao mundo e a si mesmo que havia crescido ao entrar na igreja e ter um filho, preferencialmente com um intervalo de alguns meses entre uma coisa e outra. Hoje em dia talvez seja o contrário. Há uma determinação coletiva em esticar a adolescência além do limite razoável. A sensação predominante, aquilo...

O amor bom é facinho...

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Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade? Eu suspeito que não. Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói. Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade d...