Postagens

Mostrando postagens de 2012

Medo da morte ou da vida?

Imagem
  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

Despedidas...

Imagem
Despedida é sempre triste? Eu mesmo respondo, já que perguntei: nem sempre. As lágrimas parecem inevitáveis, mas elas podem expressar apenas o momento da separação, da ruptura, aquele instante em que alguém foge ao alcance de nossos olhos e de nossas mãos. No entanto, mesmo sob o manto de uma tristeza, o que pode inundar aos poucos o coração, muitas vezes, é uma alegria de que a gente só se dá conta depois da despedida. Como todo mundo, eu já passei por despedidas sofridas. Quando meu pai estava internado no hospital, em seu último dia de vida, eu passei a tarde inteira ao lado dele. Estava lúcido, dormia a maior parte do tempo, debilitado pela doença, mas nas vezes em que despertava e trocava olhares comigo, ou algumas palavras, eu sentia que ele estava indo embora. Eu tentava falar do Botafogo ou de alguma enfermeira boazuda quando os olhos dele se abriam para proporcionar alguns últimos momentos de alegria a quem me deu tanta felicidade na vida. Mas houve aquele instante em qu...

De qual ponto você olha a vida?

Imagem
Tem gente que passa a vida de onde está olhando adiante. “Quando terminar isso, correrei atrás do meu sonho”. “Quando tal época chegar, farei o que realmente desejo”. “Quando tiver tempo livre, realizarei o projeto da minha vida.” Estou falando daqueles que vivem postergando o que acham que os fará felizes, com a desculpa de que “ainda não chegou a hora”. No futuro, esse desconhecido e incerto, está a prometida felicidade. Hoje é o lugar onde estão, com muita tolerância e sem muita presença, já que bom mesmo será o amanhã. Há um outro tipo que passa os dias olhando para trás. No ensino médio têm saudade da primeira escola; na faculdade suspiram pelo cursinho; quando entram no mercado de trabalho morrem de vontade de “voltar apenas estudar”. Casados, suspiram pela solteirice. Divorciados, sentem faltam imensa da proteção da relação a dois. Como a professorinha de Ataulfo Alves, entoam o mantra “eu era feliz e não sabia” todos os dias e para qualquer coisa. Hoje é somente um espaço ...

Os rios dentro de nós...

Imagem
Afeto e desejo são sentimentos gêmeos. Em alguns momentos da existência eles se ignoram, em outros parecem inseparáveis. Na vida dos homens, mais do que das mulheres, eles são como rios paralelos que às vezes se esbarram, mas raramente se encontram. Por isso é tão mais difícil para os homens encontrar prazer e sentimentos duradouros. Por isso não conseguem estar inteiros nas relações – porque vivem divididos por dentro. Acho que essa dificuldade explica parte das contradições que os homens exibem o tempo inteiro. “Ele disse que estava apaixonado, mas logo depois mostrou que não estava”: era o desejo falando, sem o amparo duradouro do sentimento. “Ele foi embora, mas voltou logo depois, dizendo que me amava”: o corpo da outra precisou estar ausente para o sujeito perceber os próprios sentimentos. “Ele parecia tão interessado quando eu não queria, depois que eu me apaixonei ele sumiu”: o desejo enlouquece com o que ainda não tem, e pode se cansar rapidamente depois de saciado. Afetos...

Com a ajuda dos amigos...

Imagem
Percebi outro dia que parte dos casais que eu vi surgir no início dos anos 2000 não existe mais. Várias pessoas que começaram a namorar naquela época, e que nos anos seguintes viriam a casar e ter filhos, não estão mais juntas. Elas se separaram ou estão em processo de separação. Começam inclusive a formar novos pares. Algumas estão com pessoas totalmente novas, outras revisitam relações antigas. Os que estão sozinhos têm o ar de que ainda não se acostumaram à nova situação. Todos parecem estar bem, mas, ainda assim, um pedaço de mim entristeceu ao constatar as separações. Acho que a gente simplesmente não gosta que as histórias dos outros acabem. A vida das pessoas de quem a gente gosta deveria ser como um filme que termina, congela e se eterniza no beijo final. Assim ele pode ser repetido a qualquer momento. A gente quer um final feliz eterno porque estava lá quando os amigos se agarraram pela primeira vez, porque soube quando eles transaram no réveillon da praia, porque danço...

As primeiras sensações...

Imagem
Faça o teste: as coisas que você se lembra de uma paixão antiga são aquelas que aconteceram no começo. Primeiras conversas, primeiro sexo, primeira viagem, primeira vez na casa da família. Se você for mulher, talvez se lembre de sensações, mais que de eventos: a expectativa, as surpresas, o prazer de conquistar e ser conquistada. Por alguma razão, esses momentos inaugurais ficam gravados na memória como uma espécie de trauma feliz. Eles se tornam a nossa referência, uma régua existencial contra a qual comparamos o que vem depois: maior, igual, melhor, diferente, pelo-amor-de-Deus! Para o nosso azar, a régua continua medindo depois que nos metemos numa relação estável. Acasalados, nós temos amor, cumplicidade, transamos de forma intensa e regular. Nada, rigorosamente, nos faz falta. Mas a memória, como um farol oceânico quebrado, segue mandando flashes periódicos sobre os velhos tempos – e nós, miseravelmente, somos obrigados a admitir que aquela intensidade nos faz falta.  G...

O conforto do outro...

Imagem
Viver sozinho é uma opção moderna. O sujeito não é acordado pelo despertador dos outros, volta para casa na hora que quer e vê o que deseja na televisão. Nunca tem de interromper a leitura para escutar a última história sobre a família, o trabalho ou os amigos de ninguém. Se em algum momento estiver carente, tenta encher o quarto com o corpo e as ideias de uma mulher de quem ele goste. Temporariamente. Vale o mesmo para as mulheres, claro. Muitas vivem perfeitamente à vontade com o silêncio, o vinho e os cosméticos de quem está sozinha. Cozinham para ela e as amigas, assistem duas temporadas inteiras de uma série no fim de semana e, se der vontade, arrumam companhia com mais facilidade do que os homens. Desde a invenção da internet, até o delivery de sexo por meio dos sites de relacionamento ficou fácil. Nem precisa mais sair de casa. Ainda assim, as pessoas se juntam, namoram e passam a dormir juntas todos os dias. Diante dos confortos e facilidades da vida urbana, essa atitude ...

Noites de inverno...

Imagem
É difícil sair da cama nas manhãs de julho. Do lado de fora do edredom há um mundo gelado e hostil. Do lado de dentro, calor e aconchego. Em outras épocas do ano isso talvez não fique tão claro, mas, no inverno, estar sozinho é uma forma diária e refinada de castigo. E a companhia do outro, que às vezes pode parecer supérflua, revela-se como coisa física e essencial. Em julho e agosto, calor humano é mais que uma metáfora. Tenho a impressão, às vezes, que a nossa vida é composta de essencialidades subestimadas. O calor do corpo humano no inverno é uma delas. O prazer da companhia do outro quando se chega em casa, é outra. Sentar no sofá e ver televisão quase em silêncio, falando sobre as miudezas do dia. Ir mais cedo para a cama pelo prazer de estar lá, lendo ou namorando. Saltar da cama com pressa, para aproveitar, a dois, uma manhã ensolarada. Dormir até mais tarde, sem urgência alguma, para desfrutar um sábado friorento. A gente não aproveita o suficiente essas coisas, eu ach...

O encurtamento das durações ...

Imagem
Quanto tempo leva para superar a dor da perda? Quanto tempo para digerir uma rejeição? Absorver que um sonho terminou? Esquecer uma frustração? Uma mágoa de infância? Um trauma? Uma demissão? Os psicanalistas provavelmente responderão que é preciso respeitar o ritmo de cada um. Há quem seja rápido na retomada da vida, e há os mais lentos, que necessitam de um acompanhamento mais intensivo. Não há como decretar: dois dias, dois meses, dois anos.   Só que a maioria da população não procura psicanalistas. Não têm dinheiro pra isso, e muito menos disponibilidade. As pessoas não podem parar no meio do dia para se consultar, pois trabalham insanamente, e tampouco possuem tempo para, segundo elas, desperdiçar. Sabe-se que análises são demoradas, que buscam e rebuscam nossa intimidade, que não é num estalar de dedos que se atenuam as dores internas. E qualquer coisa que demore, hoje em dia: não, obrigada. Que inquietação.   O passado e o futuro são...

Afinidades essenciais...

Imagem
Quem acompanha esta coluna sabe que eu sou obcecado pela questão das afinidades. Vira e mexe, com desculpas diferentes, eu volto a esse tema. É que me parece, cada vez mais, que a forma como a gente escolhe os parceiros, ou como cada um de nós estabelece vínculos com eles, define a nossa vida. Ao menos a nossa vida afetiva, que é parte enorme de todo o resto. Quando a gente é muito jovem, ser amado parece ser o problema essencial da nossa existência. A gente se apaixona com tanta facilidade, e com tanta frequência, que encontrar alguém que retribua na mesma intensidade parece a parte mais difícil da vida. À medida que o tempo passa, se você for honesto com você mesmo, vai perceber que a parte difícil da vida é gostar por muito tempo de alguém. Vai notar que as pessoas passam, algumas mais legais do que as outras, mas que apenas algumas delas, muito poucas, estabelecem com você um vínculo essencial. Essas pessoas que ficam são especiais – e a grande pergunta é por quê? Os cientist...

Dormir de conchinha...

Imagem
Proximidade é coisa que se aprende. Demora algum tempo para que a gente relaxe na presença do outro e extraia desse contato o prazer e a paz profundos que a intimidade física proporciona. Quando isso acontece, a gente descobre, invariavelmente, que está dormindo de conchinha. Não sei o que existe nessa posição que a torna tão universalmente afetuosa. Pense nos filmes que você viu ou nos romances que você leu: quando o narrador da história quer sugerir que o casal está muito próximo ou apaixonado, faz com que ele a abrace pelas costas e os dois adormeçam “como duas colheres”, que é o jeito como os americanos descrevem essa posição. Talvez exista a mesma expressão em japonês, mongol ou na cultura tuaregue, do norte da África. Eu não me espantaria. Sendo o corpo humano igual no mundo inteiro, é provável que diferentes culturas usem as mesmas formas corporais para demonstrar carinho e dividir conforto. No livro Tristes trópicos, do antropólogo francês Claude Levis-Strauss, já morto, ...

Alma de corno...

Imagem
Nelson Rodrigues, o Nietzsche brasileiro, escreveu que certos homens nascem para ser traídos. Pesaria sobre esses infelizes genéticos uma pátina de fatalidade que os faria caminhar - feito um Édipo, feito um Hamlet, feito um idiota - em direção à única tragédia percebida como tal por estas bandas, o chifre. Nelson era um homem dos anos 30, mas, neste assunto, acho que o imaginário brasileiro não mudou substancialmente. Para homens ou para mulheres. A traição ainda é vista como uma tragédia pessoal insuperável. A fraqueza masculina é a sua principal explicação, acompanhada, naturalmente, pelo pérfido caráter feminino. A violência, ou pelo menos a mais terrível vergonha, é percebida como a única resposta imaginável. Tudo isso no plano moral, quase filosófico. Na vida real, as pessoas traem e são traídas cotidianamente, sem que isso cause enorme confusão. Os envolvidos sofrem as consequências íntimas e sociais dos seus atos, que às vezes são graves, mas, na maior parte das vez...

Os traficantes do amor...

Imagem
Na minha mesa de trabalho há uma rosa amarela do dia dos namorados. Entraram aqui um fortão e uma loirinha, vestidos de anjo, e deixaram o presente em nome de uma marca de cerveja. Achei engraçado, mas, assim que eles saíram, bateu certa melancolia. Como é fácil banalizar as coisas que nos comovem. Como é simples transformar em clichê – ou babaquice – os sentimentos terríveis que definem a nossa humanidade. Olhe em volta: estamos cercados pela palavra amor. Há um milhão de livros com esse título, dez milhões de músicas com esse refrão, centenas de filmes e um batalhão diário de novelas que trata do assunto. Pela quantidade de produtos amorosos que nos oferecem, é inevitável concluir que consumimos mais amor do que cerveja, chocolate e televisores de tela plana. Talvez um pouco menos que celulares. Nosso apetite por amor não tem limites. Nossa sede de amor jamais acaba. Somos carentes insaciáveis. Sonhamos com o amor todas as noites. Acordamos encharcados de imagens doloridas...

Casos inacabados...

Imagem
Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue. Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a milímetros de virar sexo. Em outras, como sexo mesmo, refeição completa que mata a fome mas não satisfaz, e ainda pode causar dor de barriga. Eu chamo isso de caso inacabado. Minha impressão é que todo mundo tem ou teve alguma coisa assim na vida. Talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam. Porque o outro não quer. Porque os santos não batem. Porque uma terceira pessoa aparece e tumultua tudo. Mas o encerramento do namoro (ou equivalente) não elimina os sentimentos. Eles continuam lá, e podem se tornar um caso inacabado. Isso às vezes acontece por fraqueza ou comodismo. Você sabe que não está mais apaixon...

A fila anda...

Imagem
Quem me apresentou à expressão foi Fábio Júnior, o cantor. Ele tinha acabado um casamento relâmpago de artista e sua explicação chegou aos jornais com franqueza desconcertante: “A fila andou”. Por alguns segundos eu não entendi, depois fiquei passado. Como alguém diz uma grosseria dessas? E a consideração pela outra pessoa, não existe? Isso faz tempo. Desde então, a expressão se banalizou. Toda mundo fala e todo mundo escreve. Só nos últimos dias, deparei com “ a fila anda ” na capa de uma revista e numa propaganda de perfume. A metáfora pegou e parece que vai ficar no nosso vocabulário e no nosso comportamento: as filas andam mesmo, de forma cada vez mais rápida. Ninguém quer ficar parado. Antes de continuar, uma confissão: eu tenho dificuldade com esse tipo de andamento. Para mim a fila anda bem devagarzinho, quando anda. Às vezes fica parada por muitos anos, e é bom assim. Dá tempo de conversar, relaxar, ser feliz. Ficar sozinho, sem fila nenhuma, é meio aflitivo, mas aconte...

Passe adiante...

Imagem
Tenho vários DVDs de shows, e houve uma época em que os assistia atenta ou simplesmente deixava rodando como som ambiente enquanto fazia outras coisas pela casa. Até que os esqueci de vez. Conhecedor do meu acervo, meu irmão outro dia pediu: posso pegar emprestado uns shows aí da tua coleção? Claro! Ele escolheu quatro e levou com ele. E subitamente me deu uma vontade incontrolável de voltar a assistir aqueles shows. Aqueles quatro, não é estranho? Logo a vontade passou, mas fiquei com o alerta na cabeça. Me lembrei de uma amiga que uma vez disse que havia comprado um vestido que nunca usara, ele seguia pendurado no guarda-roupa. Um dia ela me mostrou o tal vestido e intimou: “Pega pra ti, me faz esse favor. Jamais vou usar”. Trouxe-o para casa. Muito tempo depois ela me confidenciou, às gargalhadas, que não havia dormido aquela noite. Passou a ver o vestido com outros olhos. Por que ela não dera uma chance a ele? Maldita sensação de posse, que faz com que a gente continue apegada ...

O estranho ao lado...

Imagem
Na noite passada, como em todas as noites, tive sonhos estranhos e tumultuados, que nada têm a ver com as pessoas que vivem ou convivem comigo. Minha impressão, diante dessa experiência repetida, é que esses sonhos são construídos, meticulosamente, para excluir a realidade. São feitos com um material que segrega o mundo prático e reflete, quase exclusivamente, a nossa subjetividade. Eles são uma reafirmação feroz da nossa individualidade, uma rejeição visceral, biológica, das tentativas humanas de vincular, unir e dissolver. Sugerem que, lá dentro, estamos sozinhos, ainda que amemos e sejamos amados aqui fora. Mesmo que seja um bocadinho melancólica, essa constatação ajuda e entender algo fundamental na vida dos casais: a impossibilidade de juntar tudo e dividir tudo, a insanidade absoluta de tentar viver como se dois fossem um. Assim como na Física há uma lei segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, deve haver outra lei, no universo subjetivo, que imp...

Aumente sua delicadeza até 28cm...

Imagem
O que leva o homem à impotência é o cuidado. O que leva a mulher à frigidez é o cuidado. O excesso de cuidado. Cuidado demais ataca. Nunca vi uma mulher ou um homem gostar sem criticar. O embaraço do sexo não decorre da ausência de intimidade, mas da intimidade. E da cobrança que vem com ela. Mais fácil gozar com estranhos. Depois de partilhar meses e cadernos de jornal com nosso par, abandonamos o elogio. Passamos a cobrar e expor os defeitos para que sejam corrigidos. É o cigarro, é a alimentação, é a distração, é o pouco caso com o dinheiro, é a indeterminação do trabalho, é a preguiça. A convivência traz a preocupação com o namorado ou a namorada e uma esquisita vontade de interferir. Entre conhecer e mandar, é um passo. Ou um tropeço. As mais duras agressões não provocam hematomas, ocorrem em nome da sinceridade. O amor é confundido com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. Se o outro não quer, que vá embora, que desista do prêmio maio...

Sonhos que aprisionam...

Imagem
Havia na minha casa, até uns dias atrás, uma travessa cheia de pedras. Elas eram de cores, tamanhos e formatos diferentes. Tinham em comum o fato de haverem sido coletadas em viagens. Se eu estivesse num lugar especial, procurava uma pedra bonita e a metia no bolso. Mais tarde, de volta em casa, juntava o item novo à coleção. Haveria, talvez, umas 30 pedras na travessa. Na semana passada, preparando a casa para uma reforma, disposto a recomeçar a vida, decidi que era hora de me livrar de coisas que eu vinha acumulando desnecessariamente há pelo menos 10 anos. Rodaram roupas, objetos, revistas, livros e, claro, as pedras. Mas não foi fácil. Cada vez que eu punha uma coisa de lado, com a disposição de me livrar dela, algo me incomodava profundamente. Havia uma dor ali, ou várias dores diferentes. As pedras eram parte do passado que, de alguma forma, eu tentava agarrar e materializar. Os livros, vários que eu nunca tinha lido, representavam uma inquietação pelo futuro: agora eu nun...

Mentiras consensuais...

Imagem
Existem pessoas felizes e pessoas infelizes, e todas elas se questionam. Umas bebem champanha e outras água da torneira, e se fazem as mesmas indagações. Se existe uma coisa que nos unifica são as dúvidas que trazemos dentro. São pequenas angústias que se manifestam silenciosamente, angústias que não gritam, ou gritam somatizadas em úlceras, insônias e depressões. Angústias diante das mentiras consensuais. O que são mentiras consensuais? São aquelas que todo mundo topou passar adiante como se fosse verdade. Aquelas que ouvimos de nossos pais, eles de nossos avós, e que automaticamente passamos para nossos filhos, colaborando assim para o bom andamento do mundo, para uma sanidade comum. O amor, o sentimento mais nobre e vulcânico que há, tornou-se a maior vítima deste consenso. Mentiras consensuais: o amor não acaba, não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo, quem ama quer filhos, quem ama não sente desejo por outro, amor de uma noite só não é amor, o amor requer vida partilhad...

Os restos da outra...

Imagem
Morava em uma das gavetas do meu guarda-roupa, até a semana passada, uma meia de lã verde que pertenceu ao avô de uma ex- namorada. A meia, de tão velha, estava transparente nos calcanhares. O avô, que eu não conheci, morreu há mais de uma década. E a ex-namorada, faz tempo, é feliz com outro homem Mesmo assim, a meia seguia comigo. De vez em quando, nas noites de inverno, ela saia da gaveta e me ajudava a dormir quentinho – e esse era a desculpa oficial para a sua permanência duradoura na minha casa e na minha vida. Mas seria apenas isso? Não. Como tantas outras coisas espalhadas por gavetas, paredes, armários, cabides, penteadeiras e até na porta da geladeira da minha casa, a meia de lã verde era um pedaço de memória. Estava lá para materializar um pedaço gostoso do passado e tentar impedir que ele sumisse. Sei que há pessoas que não se interessam muito pelo que passou. Gente que vira as costas rapidamente para ontem e com rapidez ainda maior começa de novo, amanhã. Gente...