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Mostrando postagens de maio, 2012

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

A fila anda...

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Quem me apresentou à expressão foi Fábio Júnior, o cantor. Ele tinha acabado um casamento relâmpago de artista e sua explicação chegou aos jornais com franqueza desconcertante: “A fila andou”. Por alguns segundos eu não entendi, depois fiquei passado. Como alguém diz uma grosseria dessas? E a consideração pela outra pessoa, não existe? Isso faz tempo. Desde então, a expressão se banalizou. Toda mundo fala e todo mundo escreve. Só nos últimos dias, deparei com “ a fila anda ” na capa de uma revista e numa propaganda de perfume. A metáfora pegou e parece que vai ficar no nosso vocabulário e no nosso comportamento: as filas andam mesmo, de forma cada vez mais rápida. Ninguém quer ficar parado. Antes de continuar, uma confissão: eu tenho dificuldade com esse tipo de andamento. Para mim a fila anda bem devagarzinho, quando anda. Às vezes fica parada por muitos anos, e é bom assim. Dá tempo de conversar, relaxar, ser feliz. Ficar sozinho, sem fila nenhuma, é meio aflitivo, mas aconte...

Passe adiante...

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Tenho vários DVDs de shows, e houve uma época em que os assistia atenta ou simplesmente deixava rodando como som ambiente enquanto fazia outras coisas pela casa. Até que os esqueci de vez. Conhecedor do meu acervo, meu irmão outro dia pediu: posso pegar emprestado uns shows aí da tua coleção? Claro! Ele escolheu quatro e levou com ele. E subitamente me deu uma vontade incontrolável de voltar a assistir aqueles shows. Aqueles quatro, não é estranho? Logo a vontade passou, mas fiquei com o alerta na cabeça. Me lembrei de uma amiga que uma vez disse que havia comprado um vestido que nunca usara, ele seguia pendurado no guarda-roupa. Um dia ela me mostrou o tal vestido e intimou: “Pega pra ti, me faz esse favor. Jamais vou usar”. Trouxe-o para casa. Muito tempo depois ela me confidenciou, às gargalhadas, que não havia dormido aquela noite. Passou a ver o vestido com outros olhos. Por que ela não dera uma chance a ele? Maldita sensação de posse, que faz com que a gente continue apegada ...

O estranho ao lado...

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Na noite passada, como em todas as noites, tive sonhos estranhos e tumultuados, que nada têm a ver com as pessoas que vivem ou convivem comigo. Minha impressão, diante dessa experiência repetida, é que esses sonhos são construídos, meticulosamente, para excluir a realidade. São feitos com um material que segrega o mundo prático e reflete, quase exclusivamente, a nossa subjetividade. Eles são uma reafirmação feroz da nossa individualidade, uma rejeição visceral, biológica, das tentativas humanas de vincular, unir e dissolver. Sugerem que, lá dentro, estamos sozinhos, ainda que amemos e sejamos amados aqui fora. Mesmo que seja um bocadinho melancólica, essa constatação ajuda e entender algo fundamental na vida dos casais: a impossibilidade de juntar tudo e dividir tudo, a insanidade absoluta de tentar viver como se dois fossem um. Assim como na Física há uma lei segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, deve haver outra lei, no universo subjetivo, que imp...

Aumente sua delicadeza até 28cm...

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O que leva o homem à impotência é o cuidado. O que leva a mulher à frigidez é o cuidado. O excesso de cuidado. Cuidado demais ataca. Nunca vi uma mulher ou um homem gostar sem criticar. O embaraço do sexo não decorre da ausência de intimidade, mas da intimidade. E da cobrança que vem com ela. Mais fácil gozar com estranhos. Depois de partilhar meses e cadernos de jornal com nosso par, abandonamos o elogio. Passamos a cobrar e expor os defeitos para que sejam corrigidos. É o cigarro, é a alimentação, é a distração, é o pouco caso com o dinheiro, é a indeterminação do trabalho, é a preguiça. A convivência traz a preocupação com o namorado ou a namorada e uma esquisita vontade de interferir. Entre conhecer e mandar, é um passo. Ou um tropeço. As mais duras agressões não provocam hematomas, ocorrem em nome da sinceridade. O amor é confundido com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. Se o outro não quer, que vá embora, que desista do prêmio maio...