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Mostrando postagens de janeiro, 2014

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

O ingrediente secreto...

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A intimidade é inviolável. Saber o que se passa no coração alheio é uma pretensão tola. A maneira como sentimos amor, como lidamos com sexo, como reviramos na cama sob o peso de uma lembrança – ou de um corpo – constituiu uma reserva indevassável de individualidade. Apenas a arte, a psicanálise ou a sinceridade dos amigos nos aproximam, precariamente, da verdade dos outros. O resto é empáfia. Na semana passada, depois de ver pela segunda vez o filme Ninfomaníaca, fui assaltado pela vontade de falar de uma questão insolúvel da nossa intimidade: a relação entre amor e sexo. A certa altura do filme, uma personagem sussurra ao ouvido da outra: “O ingrediente secreto do sexo é o amor”. Lindo, mas a personagem que recebe a revelação não acredita. E como poderia? Ela é uma devassa enrijecida, sem conhecimento do afeto. Quando se trata de sentimentos, o que é verdade palpável para um de nós pode ser romantismo pueril para o outro. E vice-versa. Eu mesmo, embora romântico, ao ouvir a frase ...

Destino se inventa...

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Se eu fosse mulher, tivesse 30 anos e não estivesse num relacionamento sério, minha lista de planos para 2014 começaria com quatro palavras: arrumar uma relação legal. Imagino, claro, que a mulher de 30 se parece comigo na idade dela: meio carente, um tanto romântico e cheio de planos para o futuro. Planos, que, no meu caso, incluíam alguém para partilhar a vida. Há muitas pessoas que não sentem assim, evidentemente. Há caras e garotas que vivem bem sozinhos. Tão bem, na verdade, que não desejam juntar os trapos e se comprometer. Eles transam quando querem, ficam bem sozinhos e extraem da sedução frequente aquela satisfação que outras pessoas só encontram na intimidade duradoura com uma mesma pessoa – por mais que ela traga seus próprios problemas. Não é raro que se tenha inveja desses sedutores solitários, mas suspeito que eles, de vez em quando, também gostariam de ser diferente do que são. Mas, se você sente que não nasceu para circular de forma autônoma, se você, no fundo da sua ...