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Mostrando postagens de agosto, 2014

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

O invariável...

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                                Outro dia escutei uma mulher separada decretar o fim da mesmice: resolveu se esbaldar na vida. Disse ela que não queria mais saber de relação fixa e que saía quase todas as noites a fim de se divertir apenas. Tem conhecido muitos caras diferentes, com alguns chega às vias de fato, e é isso aí, adeus à monotonia. Mas o olhar dela não soltava faíscas, ao contrário, parecia bem opaco. Naquele momento, lembrei uma frase do blog de um amigo paulista, o Eduardo Haak. Ele recentemente escreveu: “Nada é mais invariável do que as supostas variedades”. De primeira, quando li, me bateu uma estranheza, fiquei na dúvida se ele estava sendo irônico ou o quê, até que, ouvindo a moça baladeira contar de seus recordes de revezamento, me dei conta de que a situação dela era ilustrativa: toda variação que se torna sistemática também é mais do mesmo. Ou seja, nada impede que a busca de ...

Emocionalmente indisponível...

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                                 É fácil culpar os outros, mas quem está realmente pronto para um relacionamento? Quando se trata de romance, todo mundo acha que está pronto. O cara que acaba de se separar, a garota que nunca superou o ex, aqueles que nunca conseguiram manter um relacionamento estável. Ao contrário dos empregos e dos vestibulares, para os quais as pessoas se preparam, quando se trata de relacionamentos, todo mundo nasce sabendo. Ou acha que nasce sabendo. Na verdade, se andassem com placas no peito, revelando seu verdadeiro estado emocional, muitos trariam as palavras “emocionalmente indisponível”. Ao contrário do que gostamos de pensar sobre nós mesmos, ou sobre os outros, ninguém está pronto, em todos os momentos, a começar um relacionamento. Pense em quem você conhece bem: você acha que estão livres para gostar de alguém ou preparados para que alguém goste deles? A resposta, e...

Frente a frente...

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                        Muitos de nós, talvez a maioria, gastam mais tempo nas redes sociais que nas relações sociais de verdade. É só fazer as contas. Interagimos com dezenas de pessoas por dia pelo Facebook, gastamos horas nisso, mas quase não encontramos ninguém pessoalmente. A situação é tão cômoda, envolve tanta gente, que essa forma de relacionamento à distância – por meio do celular ou do computador - tem se tornado a vida social real, enquanto a outra, que só ocorre quando as pessoas se encontram frente a frente, toma ares de coisa alternativa e eventual, uma espécie de universo paralelo que transcorre à margem daquilo que realmente importa. Obviamente, essa situação tem consequências. Uma delas, terrível, é a redução das nossas habilidades sociais, como seduzir olhando nos olhos do outro. Ontem, não pela primeira vez, uma amiga se queixava comigo da dificuldade em fazer engrenar, pessoalmente, um xaveco que anda r...