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Mostrando postagens de 2015

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

Solidão contente...

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Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão. Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas. Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha. Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas. “Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a ...

Nós, os perdidos...

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Gente envolvida com a espiritualidade oriental tem uma palavra bonita para falar de si mesmo. Eles se descrevem como buscadores – pessoas que procuram respostas para as angústias da existência através da contemplação. Os buscadores podem ser religiosos ou laicos, mas todos exibem a disposição de encarar a vida como uma jornada de transformação pessoal e compreensão do mundo. Essa jornada, invariavelmente, começa no momento em que cada um deles se descobre perdido. Considerando o quanto essa experiência é frequente, somos um planeta repleto de buscadores em potencial. Sem a necessidade de consultar estatísticas, eu aposto que a maior tribo do mundo é formada por gente que está na vida sem ter noção do que fazer com ela ou consigo mesmo. São os perdidos. Eles podem ter rotinas, hábitos, obrigações e distrações, mas o senso de propósito e direção está ausente. Vivem um dia depois do outro e às vezes parecem avançar decididamente em alguma direção, mas é melhor não perguntar por quê. A p...

Encontros...

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O intervalo entre relações é um período de encontros. Conosco, em primeiro lugar, mas logo em seguida com o mundo. A gente está triste, (porque perdeu um grande amor), ou se sentindo esquisito, (porque todo fim deixa um gosto amargo), e nesse estado delicado começa a tropeçar nas pessoas. Cruzamos com aquele rosto conhecido na livraria. Descobrimos um sorriso novo e atraente numa festa. Recebemos, por rede social, um agrado inesperado, vindo de alguém que admiramos de longe, faz um tempo. Esses encontros são o melhor que pode nos acontecer nesse momento da vida. Eles nos lembram que há mais gente no mundo do que a pessoa que nos deixou ou a quem deixamos. Mostram que o nosso interesse pelos outros está vivo. Informam que somos capazes de provocar desejo e afeto nos demais. Ao final de uma ruptura dolorida, a gente esquece que existe o futuro. Imagina que a dor e a solidão vão se perpetuar e que o vazio que nos assombra jamais será preenchido. Os encontros ocorrem para nos lembrar que...

Coragem...

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     “A pior coisa do mundo é a pessoa não ter coragem na vida.” Pincei essa frase do relato de uma moça chamada Florescelia, nascida no Ceará e que passou (e vem passando) poucas e boas: a morte da mãe quando tinha dois anos, uma madrasta cruel, uma gravidez prematura, a perda do único homem que amou, uma vida sem porto fixo, sem emprego fixo, mas sonhos diversos, que lhe servem de sustentação. Ela segue em frente porque tem o combustível que necessitamos para trilhar o longo caminho desde o nascimento até a morte. Coragem. Quando eu era pequena, achava que coragem era o sentimento que designava o ímpeto de fazer coisas perigosas, e por perigoso eu entendia, por exemplo, andar de tobogã, aquela rampa alta e ondulada em que a gente descia sentada sobre um saco de algodão ou coisa parecida. Por volta dos nove anos, decidi descer o tobogã, mas na hora H, amarelei. Faltou coragem. Assim como faltou também no dia em que meus pais resolveram ir até a Ilha dos Lobos, e...

Como você lida com seus medos???

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Cada um tem um monstrinho para enfrentar. Talvez seja um vício, um medo, uma rejeição, qualquer coisa que gere o sentimento de querer fugir o mais rápido possível da situação. Existem aqueles que, para se defenderem, utilizam do ataque/agressividade (sabe aquela pessoa que se for colocada só um pouquinho contra a parede já vai cuspindo fogo e não admite de forma alguma falar sobre o assunto? É bem provável que seja um mecanismo de escapismo), enquanto que outras simplesmente evitam e evitam enfrentar a questão numa procrastinação tão grande que a vida fica de saco cheio da pessoa e coloca na frente dela o mesmo tipo de problema inúmeras vezes até que ela se obrigue a ser forte o suficiente para enfrentá-lo. De acordo com o dicionário Michaelis, este conceito pode ser definido como: Medo (ê) sm (lat metu) 1 Perturbação resultante da ideia de um perigo real ou aparente ou da presença de alguma coisa estranha ou perigosa; pavor, susto, terror. 2 Apreensão. 3 Receio de ofender, de causa...

Amar exige generosidade...

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A vida exige destemor e desapego. Em algum momento temos de arriscar, saltar no escuro, avançar sem certeza do que vai pela frente. Sobretudo no amor. Se a gente pensa demais, hesita demais, pondera demais, não acontece. As oportunidades passam, a vida passa, sem que a gente se comprometa. Do que é mesmo que estou falando? Das opções difíceis que as relações amorosas nos oferecem. Estou falando de sacrifício. Cada pessoa que escolhemos nos faz um tipo de exigência subjetiva. Às vezes elas são simples – como namorar e ter uma vida leve, parecida com a nossa própria. Outras vezes as escolhas são menos óbvias – como ao amar alguém que traz uma dor, ou uma carga ser partilhada. Tenho um amigo que, assim como tantos, casou-se com uma mulher que tinha dois meninos. Ele, sendo jovem e livre, poderia ter se esquivado, mas não. Abraçou a situação e tentou ser para os garotos o melhor padrasto possível. Gostar da mulher era fácil. Quando tudo deu errado, lá na frente, por outras razões, ele ...

As vezes não conseguir o que queremos é uma tremenda sorte...

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                                      Existe uma história indiana que conta que um rapaz procurou um grande guru buscando ajuda e disse a ele que só havia escuridão à sua volta e que, portanto, ele não conseguia enxergar um palmo à frente do seu nariz. Foi então que o guru disse a ele que, na realidade, só havia luz ao redor dele, mas ele não percebia porque estava com os olhos fechados. O rapaz não compreendeu as palavras do guru que o mandou embora pra casa, dizendo que não havia nada que poderia ser feito para ajudá-lo, pois ele era o único que podia controlar suas próprias pálpebras. Meu pai simplifica essa história com o costume de dizer que alguém no fundo do poço – agarrado a uma pedra que ama – não pode ser resgatado por ninguém.        Nesse mesmo contexto, uma piada, dessas infames, conta que o diabo estava muito frustrado com Deus, pois mesmo as pessoas mais mise...

Orfandades...

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Quem ama cuida. Quem ama não se ausenta e nem se esquiva. Quando as coisas ficam difíceis, estica a mão, oferece o ombro, abraça e conforta. Quem ama se faz presente, não sai do ar. Às vezes se sacrifica. O amor tem uma cláusula de irrevogabilidade. Se foi revogado não é amor. Já era. Se isso lhe parece antigo, tem razão. As coisas não são mais assim. A modalidade de amor que praticamos é mais amena. Está ligada ao nosso futuro, à nossa carreira, a certa ideia de conforto e sucesso. É contingente. Virou uma forma de realização pessoal e social, não sentimento pelo qual pagamos um preço. Pelo amor não sacrificamos nada, só recebemos. Desculpem se pareço triste, mas percebo ao meu redor - e dentro de mim - uma sensação pesada de orfandade, ligada à transitoriedade das coisas. Fui ver na internet e descobri que a palavra "órfão" vem do grego orphanos, que significa, literalmente, "privado" ou "desprovido". Não nos sentimos privados de proteção e carinho? Nã...

A crise dos 30...

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                           Talvez seja apenas uma experiência pessoal, mas eu duvido. Ao redor de mim, sinto que outros homens são forçados a lidar com a mesma perplexidade: as mulheres se aproximam dos 30 anos e, repentinamente, tudo começa a mudar. Outro dia, conversando com uma moça dessa idade, ela contou que nos meses anteriores havia rompido com o homem com quem morava, viajado para a Índia, mudado de emprego e de profissão e encontrado uma nova forma de viver, baseada na meditação e no autoconhecimento. "Meu namorado achava que estava tudo bem, mas não estava", diz ela. "Eu estava em ebulição, sentada no sofá ao lado dele". Ela não tinha certeza sobre o que desejava, mas sabia que tinha de sair e procurar. Foi o que fez, diante do olhar atônito do parceiro. Não voltou mais. O senso comum costuma relacionar esse comportamento - e essa crise - a uma única palavra: maternidade. Na curva dos 30, as moças começar...

Janelas de oportunidade...

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  O amor, como tantas outras coisas, depende de oportunidades. A pessoa que hoje vira do avesso a minha vida, em outro momento poderia ter passado sem ser notada. Bastaria que houvesse alguém ocupando meus sentimentos. Ou satisfatoriamente a minha cama. Eu estaria indisponível aos apelos dela - e um caminho possível da nossa história seria fechado, antes mesmo de começar. Acho que ainda não se escreveu suficientemente sobre a importância das janelas de oportunidades. Elas aparecem simultaneamente na vida de duas pessoas e tornam os encontros possíveis. Ou não aparecem, e nada se materializa. Um fica parado diante do outro, mas o tempo não oferece uma passagem que os ligue. No passado, aquela pessoa me quis, mas eu estava envolvido com outro alguém. Quando o envolvimento terminou e olhei em volta, quem me queria não estava mais só. Aquilo que talvez pudesse acontecer não aconteceu. Faltou a janela. Foi preciso esperar outra volta do destino. Em alguns casos ela veio. Em outros, nã...

Não gosta de mim? Só lamento!

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Passaram os fogos, a ceia, o ano velho. E, sinceramente, tirando os quilos que ganhei nas comemorações, não noto diferenças na minha pessoa. O espelho, mau como o da madrasta da Branca de Neve, não me poupa críticas. Nem olho mais. E da empoeirada lista de metas de 2014, não mais que uns três itens riscados. Minha meta para 2015 é um 2015 sem meta. Não me faltam objetivos, nem sonhos. Muito menos desejos. Tenho baús cheios de tudo isso. Me falta é ação. Listas de metas não têm resolvido meu caso. Meta de ano novo é como lista de mercado. Você entra cheia de gás e necessidades. Na pressa esquece um monte de coisas e sempre sai sem o que precisava. Já acabou de sair de um mercado cheio e lembrou do que esqueceu de comprar? Ó dor. Em todo caso, um ano começa de novo. Se o ano pode, por que não eu? Posso! Recomeçarei também. Não mudo de nome, como ele faz: 2014 para 2015. Até que não seria má ideia. Mas gosto do meu nome, estou acostumada com ele, as pessoas já me conhecem. Trocar docu...