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Mostrando postagens de junho, 2017

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

O que grita dentro de nós...

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Diante do auditório lotado, o professor de psicanálise fala do inconsciente, usando um exemplo do cotidiano: o rapaz se aproxima da moça, que tem a intenção de fazer-se difícil. Mas, assim que ele começa a falar, ela enrubesce, e, quando tenta responder, gagueja. Talvez o rapaz não perceba, mas a conquista que ele almeja já aconteceu. O comportamento involuntário dela é uma confissão de interesse. Sentado na terceira fila do auditório, ouvindo a palestra, me ocorre que o amor – aquilo que o professor freudiano chama de desejo – é sempre uma confissão. Uma confissão de insuficiência. Eu, pessoa inteira e autônoma, confesso que a sua presença me perturba e gratifica. Mesmo temeroso, confesso que desejo que você partilhe o meu corpo, meus sentimentos e minha vida, ainda que isso perturbe a minha estabilidade. Quando você for embora, ou, mesmo ao meu lado, deixar de me olhar com olhos apaixonados, confesso que pensarei em morrer, e que meu luto cobrirá a cidade como chuva gelada. ...