Olhe para ela!

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  "Ver o outro de verdade é um sinal de carinho e de respeito..." Toda questão complicada tem uma resposta simples, e ela, invariavelmente, está errada.  Eu me lembrei dessa velha ironia na segunda-feira, no Rio de Janeiro, quando um rapaz se aproximou durante o lançamento do meu livro e disse que gostaria de fazer uma pergunta. Mesmo antevendo uma situação embaraçosa, eu concordei, e ouvi o seguinte: se eu tivesse de dar um único conselho para ajudá-lo num relacionamento, qual seria?  Pense no que vocês diriam no meu lugar. Eu, posto na situação sem aviso prévio, respondi sem hesitar: “Preste atenção nela. Tente entendê-la. Descubra o que ela pensa e o que ela sente.”  O rapaz ensaiou outras perguntas, mas, como havia uma fila atrás dele, a conversa acabou por ali. Ele foi embora, não inteiramente satisfeito, e eu segui dando autógrafos e conversando com as pessoas, meio incomodado – com a pergunta dele, com a minha resposta e com a situação desconhecida do rapaz, q...

De casal é melhor...



A solidão é uma caixinha repleta de possibilidades, mas nenhuma delas equivale a um relacionamento apaixonado. A frase me ocorreu esta tarde, enquanto eu perambulava pelas ruas de Buenos Aires olhando os prédios antigos e as mulheres que o verão espalha nas calçadas da cidade. Mesmo contente, fui obrigado a lembrar que da última vez que estive aqui estava mais feliz, acasalado.

Existe algo profundo e benigno na nossa natureza que floresce apenas na presença do amor. Não falo de uma paixão sozinha e inventada, mas de uma atração correspondida, que nos permite desabrochar sem pressa e sem medo na presença do outro. Os dois se aceitam e se desejam, e por isso – exatamente por isso – podem se tornar pessoas melhores. Esse é o poder do amor.

Ao redor desse tipo de relação ocorrem pequenos milagres de física afetiva. Assim como a luz se curva na borda de um buraco negro, o ar que circunda os apaixonados vibra de forma distinta. Você olha Buenos Aires pelos olhos do seu amor e a cidade entra em suas narinas pela respiração suave dela. Por isso a memória nos castiga com comparações, anos depois. Algo nas nossas moléculas coteja o passado e o presente, e percebe a diferença. Existe uma felicidade em estar só e ser dono de si. Existe outra, maior, em estar voluntariamente acompanhado.

Falo por mim, naturalmente.

Neste exato momento, vendo a tarde se converter em noite atrás dos prédios velhos, sentindo o cheiro de azeite e carne entrar pela janela do apartamento, um outro ser humano talvez se sentisse pleno. Eu sorrio e agradeço pela graça deste dia, mas o meu coração pede mais – que, ao meu lado, a mulher que eu amo espere sem pressa que eu termine de escrever, para sairmos pelas ruas de San Telmo a caminhar sob a Lua. Ela, de vestido florido e sandálias, sorrindo para mim como se eu a tivesse resgatado de um planeta de mulheres perdidas. Eu, embasbacado pela presença dela, tremendo internamente de alegria, temeroso, apenas, de que o mundo repentinamente se acabe, no auge da minha felicidade.

Lembrei de um verso da peça do Teatro Oficina que eu vi na noite de Ano Novo. Ele dizia assim: “Lá em cima, a Lua cheia. Aqui embaixo, a rua cheia”. Assim são os nossos vastos sentimentos nas noites de verão. A vida cheia de promessas clama por se materializar na forma de um parceiro ou parceira. Ele será um ponto de chegada e recomeço. Sem ele – sem a companhia da mão que ampara e acaricia – a vida escorre e se dissipa, apesar dos momentos cintilantes. O amor cristaliza os instantes e os eterniza. Faz com que, dentro de nós, o tempo seja suspenso, lançando para longe a ideia da morte. O amor nos faz sentir imortais, porque divinos.

A solidão, no entanto, é uma caixa repleta de surpresas. Dentro dela brotará o novo amor, capaz de nos redimir. A você e a mim. Em São Paulo, Buenos Aires ou Belo Horizonte.Se tivermos sorte e uma gota de coragem.

Ivan Martins

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