Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

Que tal apertar o botão RESET?


Todo amor é uma forma de desamparo e perda de si mesmo. De um momento para o outro, nos tornamos vulneráveis. Querer demais o outro nos desequilibra, pondo em evidência a nossa insuficiência como indivíduos.
Todos já passamos por isso, em algum momento.
Apaixonados, deixamos de ser o que éramos e nos transformamos em gente mais frágil e feliz. Ao romper amarras, o amor nos lança ao mar revolto das expectativas. Damos adeus à segurança e olhamos a vida de forma nova, de longe. O que nela é essencial? O que realmente importa?
O ser amado é a resposta, e sobre ele não temos controle.
Desamparados por essa percepção, desmoronamos – e temos a chance de nos refazer. O amor, quando começa e quando acaba, na euforia do romance e na dor da separação, nos oferece um mundo novo, reavaliado.
Nosso olhar apaixonado não vê o que via antes. Ele se esvazia de certezas. Tudo ao redor parece incerto e ao mesmo tempo possível. A única porta fechada é o passado, para onde não se pode mais voltar. Tudo o que havia antes foi transformado.
O amor nos convida a apertar o botão RESET e recomeçar.
Entendem o que estou dizendo?
Há uma vida normal e uma outra vida, que se revela quando o véu da normalidade foi rasgado. Esse é o desamparo essencial. Ele nos desprotege, faz com que tudo pareça estranho, luminoso, hostil.
O desamparo amoroso nos desafia e nos assusta, exige providências. Há que viver urgentemente aquilo que nos acomete – e esse viver nada tem em comum com a vida anterior, cheia de cuidados.
O amor exige que a  gente se atire. Exige corar, exige expor o corpo ao risco. Amar exige coragem.
Percebem?
Também é possível viver o amor de forma comedida. Recusar o que ele nos pede. Ouvir o medo, refazer o cálculo, manter na mesma cesta o imponderável e o previsto. Ficar em vez de saltar.
É possível amar sem dar-se ao risco, como quem nada a 10 metros da praia. Mas é tão frustrante. E ao final tão impossível.
O gesto que não fizemos ontem nos será cobrado amanhã. Voltará como um fantasma a nos assombrar. No mundo dos sentimentos há um equilíbrio. Eu me preservo aqui, para sofrer amanhã de outra forma. Aqui me falta coragem, adiante sobrará arrependimento. Agora prevalece o cálculo, depois me invadirá a dor.
Entendem?
O desamparo do amor assusta, mas não poderia nos acovardar. Com a força dele podemos fazer coisas grandiosas. Expostos ao medo, essencialmente despossuídos, temos a chance de encontrar outras formas de ser. Podemos mudar nosso mundo interior. Quem sabe refazer o mundo que nos cerca. A cada gesto de atrevimento, se abrem novos horizontes.
Um homem apaixonado pode recriar a si mesmo. Uma mulher que ama pode inventar-se outra vida. Porque a vida anterior já não existe e aquilo que éramos não pode ser mais. 
Desamparados, quase livres, tentaremos ser felizes, reconstruindo o nosso mundo material e afetivo. Desamparados, quase felizes, experimentaremos a possibilidade de viver de outra forma. O amor é a porta que se abre. O desamparo, a queda que nos liberta.
Ao nosso redor existe o medo e o mundo. Dentro de nós, um monte de regras. Amar é desamarrar-se e prosseguir.
Ivan Martins

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