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Mostrando postagens de 2016

Medo da morte ou da vida?

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  O que a consciência da finitude revela sobre nossas escolhas? O que faz uma pessoa ficar enlatada em um avião por 11 horas, desembarcar num lugar desconhecido, comer e beber pagando uma exorbitância em euros, para então voltar para casa percorrendo as mesmas cansativas 11 horas, agora com um monte de dívida no cartão? Parece irracional, mas a morte é mais irracional ainda: irá nos tirar de cena a qualquer minuto, contra a nossa vontade. Como se rebate essa afronta? Com irracionalidades como o amor, o êxtase, as surpresas. Atravessamos a famosa faixa de pedestre de Abbey Road escutando Beatles nos fones de ouvido porque a morte está à espreita, é assim que a combatemos. Nos emocionando. Nos divertindo. Encontrando os mesmos amigos uma, duas, mil vezes, para reforçar o afeto. Se apaixonando, para andar na corda bamba. Assistindo a uma ópera, mesmo preferindo o rock. Lutando pelo bem-estar dos outros e participando de movimentos pacifistas , para deixar um mundo melhor lá ad...

Quem gosta, mostra...

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Lembro perfeitamente da frustração: eu encantado pela moça e ela me driblando, por quase um mês. O primeiro encontro fora perfeito, mas nunca mais se repetiu. Ela se dizia ansiosa para me ver, mas sempre arrumava uma nova desculpa para adiar. Um dia, cansei das explicações, da incerteza e do desapontamento. Apesar da atração que sentia por ela, cortei a comunicação e nunca mais nos falamos. Essa experiência marcante deu forma a um princípio que tento seguir à risca: relações amorosas começam de forma simples e recíproca, ou nem começam. Acredito que os sentimentos se expressam de maneira clara. Quem gosta, mostra. Quando as coisas são emocionalmente claras, os atos são simples. Quem está hesitando, enrolando ou adiando, é porque não sabe o que sente – e poucas coisas são mais dolorosas do que se envolver com quem não sabe o que quer. Vale o mesmo para a reciprocidade. Se você está perdidamente apaixonada e a pessoa parece mais interessada na tela do celular, cuidado – esse c...

O ponto de não retorno...

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Chega um momento em que a pessoa que um dia amamos ainda é capaz de nos magoar, mas não será capaz de nos fazer feliz. Eu me dei conta disso faz uns dias, durante um almoço com uma amiga que vive uma separação demorada e difícil. Ela contava o que sentiu ao ver seu ex com outra mulher, no Facebook. “Não daria para voltar com ele. Não é mais possível. Mas doeu tanto vê-lo com outra...” Esse é o ponto de não retorno: a relação anterior ficou tão distante que não se pode mais voltar a ela. A única opção é avançar sozinho, torcendo para que outro amor apareça e nos ajude superar o ciúme e o ressentimento deixados pela separação. Identificar esse momento delicado é ainda mais essencial para quem está num relacionamento apodrecido. Nele, o outro pode nos machucar e nós podemos machucá-lo, diariamente, mas ninguém é capaz de dar felicidade ao parceiro ou a si mesmo. Se o convívio se resume a desentendimentos, frustrações e brigas, e se o sexo, quando acontece, vem recoberto por raiva e anim...

Os diálogos inexistentes...

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Em vez de anjo da guarda, eu queria ter nos bastidores da minha vida uma equipe de roteiristas profissionais, com poder de mudar minha história. Cada vez que estivesse a ponto de fazer algo definitivo, a cena seria congelada ao meu redor – todos parados como estátuas, no meio de um gesto ou de uma palavra – e eu ouviria ponderações sobre a melhor maneira de agir. “Se você disser isso, ela irá embora em uma semana”, avisaria o roteirista, de prancheta na mão, ajeitando os óculos de acetato azul. “É isso mesmo que você deseja?” Mesmo hesitando, eu diria, “sim”, ao que ele, sorrindo, falaria em voz alta, para alguém oculto atrás das paredes. “OK, deixa correr!” E a cena teria sequência, para o bem ou para o mal. Imagine de quantas dores e arrependimentos seríamos poupados se a vida nos desse essa pequena oportunidade. Os roteiristas saberiam o que as alternativas de futuro nos reservam e ajudariam, com pequenas advertências e empurrões, a tomarmos o caminho mais divertido até o final ...

A grama do vizinho...

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Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco. Há no ar certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso? Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: “Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento”. Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são, ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho. As festas em outros apartamentos são fru...

Que tal apertar o botão RESET?

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Todo amor é uma forma de desamparo e perda de si mesmo. De um momento para o outro, nos tornamos vulneráveis. Querer demais o outro nos desequilibra, pondo em evidência a nossa insuficiência como indivíduos. Todos já passamos por isso, em algum momento. Apaixonados, deixamos de ser o que éramos e nos transformamos em gente mais frágil e feliz. Ao romper amarras, o amor nos lança ao mar revolto das expectativas. Damos adeus à segurança e olhamos a vida de forma nova, de longe. O que nela é essencial? O que realmente importa? O ser amado é a resposta, e sobre ele não temos controle. Desamparados por essa percepção, desmoronamos – e temos a chance de nos refazer. O amor, quando começa e quando acaba, na euforia do romance e na dor da separação, nos oferece um mundo novo, reavaliado. Nosso olhar apaixonado não vê o que via antes. Ele se esvazia de certezas. Tudo ao redor parece incerto e ao mesmo tempo possível. A única porta fechada é ...

De casal é melhor...

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A solidão é uma caixinha repleta de possibilidades, mas nenhuma delas equivale a um relacionamento apaixonado. A frase me ocorreu esta tarde, enquanto eu perambulava pelas ruas de Buenos Aires olhando os prédios antigos e as mulheres que o verão espalha nas calçadas da cidade. Mesmo contente, fui obrigado a lembrar que da última vez que estive aqui estava mais feliz, acasalado. Existe algo profundo e benigno na nossa natureza que floresce apenas na presença do amor. Não falo de uma paixão sozinha e inventada, mas de uma atração correspondida, que nos permite desabrochar sem pressa e sem medo na presença do outro. Os dois se aceitam e se desejam, e por isso – exatamente por isso – podem se tornar pessoas melhores. Esse é o poder do amor. Ao redor desse tipo de relação ocorrem pequenos milagres de física afetiva. Assim como a luz se curva na borda de um buraco negro, o ar que circunda os apaixonados vibra de forma distinta. Você olha Buenos Aires pelos olhos do seu amor e a cidade entr...

10 coisas que aprendi com 2015...

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Ouço todo mundo reclamando de que este ano não foi fácil. Eu concordo inteiramente. Aconteceu de tudo, e muita coisa foi ruim. Para mim, foi um ano de perdas como eu nunca tinha tido. Para todos, parece ter sido um ano de grande confusão – aquilo que os chineses chamavam, com enorme ironia, de “tempos interessantes”. De alguma maneira sobrevivemos e, naturalmente, aprendemos com isso. Eu mesmo aprendi muita coisa. Sobre morte, sobre separação, sobre relações passageiras e sobre o papel dos bichos na nossa vida. Muitas dessas coisas, como dizia um antigo chefe meu, são novidades apenas para mim. Outras, podem ser novas para mais gente. Tomara que haja mais do segundo caso. Dizem que a gente nunca aprende com a experiência dos outros, mas eu sou um pouco mais otimista. Se o meu annus horribilis não for capaz de ensinar, talvez consiga distrair. Vocês me digam: 1. Mãe faz muita falta. Não adianta ser um adulto grisalho. Não importa que a sua mãe tenha 87 anos. Quando ela morre, abre um...