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domingo, 25 de setembro de 2011

DOR FÍSICA X DOR EMOCIONAL

 O maior medo do ser humano, depois do medo da morte, é o medo da dor. Dor física: um corte, uma picada, uma ardência, uma distenção, uma fratura, uma cárie. Dor que só cessa com analgésico, no caso de ser uma dor comum, ou com morfina, quando é uma dor insuportável. Mas é a dor emocional a mais temível, porque essa não tem medicamento que dê jeito. Uma vez, conversando com uma amiga, ficamos nessa discussão por horas: o que é mais dolorido, ter o braço quebrado ou o coração? Uma pessoa que foi rejeitada pelo seu amor sofre menos ou mais do que quem levou 20 pontos no supercílio? Dores absolutamente diferentes. Eu acho que dói mais a dor emocional, aquela que sangra por dentro. Qualquer mãe preferiria ter úlcera para o resto da vida do que conviver com o vazio causado pela morte de um filho. As estatísticas não mentem: é mais fácil ser atingida por uma depressão do que por uma bala perdida. Existe médico para baixo astral? Psicanalistas. E remédio? Anti-depressivos. Funcionam? Funcionam, mas não com a rapidez de uma injeção, não com a eficiência de uma cirurgia. Certas feridas não ficam à mostra. Acabar com a dor da baixa auto-estima é bem mais demorado do que acabar com uma dor localizada. Parece absurdo que alguém possa sofrer num dia de céu azul, na beira do mar, numa festa, num bar. Parece exagero dizer que alguém que leve uma pancada na cabeça sofrerá menos do que alguém que for demitido. Onde está o hematoma causado pelo desemprego, onde está a cicatriz da fome, onde está o gesso imobilizando a dor de um preconceito? Custamos a respeitar as dores invisíveis, para as quais não existem prontos-socorros. Não adianta assoprar que não passa. Tenho um respeito tremendo por quem sofre em silêncio, principalmente pelos que sofrem por amor. Perder a companhia de quem se ama pode ser uma mutilação tão séria quanto a sofrida por Lars Grael, só que os outros não enxergam a parte que nos falta, e por isso tendem a menosprezar nosso martírio. O próprio iatista terá sua dor emocional prolongada por algum tempo, diante da nova realidade que enfrenta. Nenhuma fisgada se compara à dor de um destino alterado para sempre.

Martha Medeiros

sábado, 24 de setembro de 2011

Você tem inveja de quem??


A constatação é inevitável: há sempre alguém mais alto, mais bonito ou mais inteligente do que cada um de nós.
Na infância a gente descobre, sem prazer nenhum, que a criança ao lado parece atrair todas as atenções. Na adolescência há o cara, ou a menina, por quem metade da escola é apaixonada. Mesmo na vida adulta – quando a racionalidade deveria nos ajudar – o drama continua e se amplia. O terreno da competição (e da dor) tornou-se maior: aquele sujeito é promovido todo ano, aquela outra arruma um namorado por mês, fulano é adorado por todo mundo, sicrana viaja todo ano para lugares incríveis… A coisa não para. Sempre haverá um motivo, sempre haverá alguém para nos causar inveja.
Dentro dos relacionamentos não é diferente. Eu consigo pensar, com base nos meus próprios e mesquinhos sentimentos, em pelo menos duas maneiras pelas quais a inveja pode se meter na vida dos casais – uma externa, bem óbvia, e outra interna, na qual se presta menos atenção.
A situação óbvia é a inveja pelo parceiro do outro.
Você está lá, em paz com o seu quinhão, mas o seu amigo ou amiga aparece com uma pessoa nova, extremamente atraente e sedutora. Você fica feliz por ele ou por ela? Talvez. Mas é possível que você reaja humanamente, passando a olhar de forma crítica o seu próprio parceiro ou parceira, que, até ontem, fazia você feliz. De tanto desejar o namorado ou a namorada do outro – que pernas, que sorriso, que jeito gostoso – você acaba achando a sua ou o seu sem graça. Sente impulsos de arrumar para você mesmo alguém igualmente atraente, charmoso ou inteligente.
Isso se chama inveja. Detona a relação, estraga a sua cabeça e, rigorosamente, não tem solução: sempre vai aparecer alguém acompanhado de uma pessoa encantadora. Mais bonita, mais jovem ou mais bem sucedida do que aquela ao seu lado. Se você não aprender a ficar sereno com as suas escolhas, vai competir (e perder), o tempo inteiro.
A situação que eu descrevi acima é muito comum entre os homens. Não apenas por que somos competitivos – e, potencialmente, mais superficiais que as mulheres –, mas por sermos grandes mentirosos. Os homens exageram muito a própria felicidade para impressionar o resto do bando. Sobretudo quando se trata de sexo. O sujeito começa a sair com uma nova mulher e “reclama”, repetidamente, que não consegue mais dormir de tanto transar. Para o cara ao lado, que está num relacionamento estável e esqueceu como ele mesmo costumava exagerar essas histórias, fica a impressão, dolorosa e falsa, de que todos vivem como faunos e apenas ele tem vida sexual ou afetiva medíocre. Há que tomar cuidado com as palavras dos outros.
A outra situação em que a inveja atrapalha é quando ocorre no interior dos casais.
Às vezes é duro aceitar o sucesso ou as virtudes da pessoa de quem a gente gosta. De alguma forma, eles nos ofendem e nos inferiorizam. Em vez de celebrar as realizações da pessoa de quem estamos próximos, nos ressentimos delas. Sem admitir. Isso acontece em vários terrenos.
É muito comum ver homens magoados com o sucesso da mulher deles. A vida dele não andou como ele gostaria, a da namorada vai de vento em popa, o sujeito fica infeliz. Vai se tornando amargo, ressentido, às vezes até agressivo. Começa a detonar a parceira, como se não houvesse mérito – apenas sorte e privilégio – no que ela obteve. Isso é comum sobretudo entre casais que se formam no trabalho. Uma carreira decola, a outra não. O bode vem morar na sala.
Outras vezes, a inveja no interior do casal é provocada por coisas subjetivas. Nós podemos ter inveja do temperamento, do caráter ou da inteligência do outro – mesmo que eles não se transformem em dinheiro ou reconhecimento material. Algumas pessoas têm uma nobreza que outras não têm. Coragem para agir ou sentir de forma intensa, por exemplo. Traços de personalidade são muito perceptíveis quando estamos próximos de alguém. São eles que verdadeiramente definem uma pessoa, para além da aparência ou das circunstâncias sociais.
No início, essas qualidades (ou mesmo defeitos) atraem de maneira inequívoca. Mas, depois algum tempo, se não desenvolvermos em nós mesmos traços que nos despertem admiração, se não crescemos,sobrevém certo cansaço das virtudes do outro, uma impaciência crescente com aquilo que sabemos ser admirável. Disciplina vira chatice. Honestidade parece grosseria. Integridade não passa de teimosia. Inteligência se transforma em pedantismo. Dignidade é apenas soberba. Humor nos parece frivolidade. Leveza? Irresponsabilidade. No fundo, podemos estar tomados pela inveja do que o outro é e nós gostaríamos, inutilmente, de ser.
Minha impressão, em resumo, é que a inveja não tem limites e seus efeitos são extremamente subestimados nas relações íntimas.
A gente pode ter inveja da beleza ou da juventude do parceiro. Pode ter inveja da desenvoltura sexual dele ou dela. Seres humanos têm inveja (que se confunde com ciúme) do passado das pessoas de quem gostam. Podemos ter inveja do futuro dele ou dela, um sentimento esquisito e doloroso. Quem não sentiu inveja da família do outro, do sono profundo do outro, do filho ou filha linda que ele tem? Eu já. Suponho que vocês também. A inveja faz parte da vida. Está no ar como o amor. Enxergá-la e lidar conscientemente com ela – em vez de ser movido por ela sem perceber – faz parte do nosso aprendizado. Aquele aprendizado que começou na infância, quando o garoto da carteira da frente, e não você, recebeu um afago da professora.

Ivan Martins

domingo, 18 de setembro de 2011

Apaixonar-se é possível...


Por que as pessoas se apaixonam? Nos últimos dias eu tenho pensado nisso: por que algumas pessoas, e não outras, nos cativam? Homens e mulheres são atraídos uns pelos outros o tempo inteiro, por diversas razões. Umas pessoas são bonitas, outras são sensuais, algumas têm carisma. Mas poucas causam impacto. Por alguma razão, a graça desaparece e com ela o desejo de rever.
Essa é a regra nas grandes cidades: tentativa e erro. Aquilo que os cínicos chamam de mercado e os pessimistas de selva. Outro dia alguém me disse um nome novo: prateleira. Acabou o namoro, estava na prateleira. Tipo sucrilhos.
As mulheres se queixam disso. Sentem-se usadas. O sujeito se esforça em seduzir, é todo gentilezas, desdobra-se em safadezas e, dias depois – às vezes, horas ou minutos depois – veste a calça e some para nunca mais ser visto.
Tudo isso parece premeditado. Mas eu posso atestar, tendo ouvido centenas de depoimentos espontâneos, que o homem está sinceramente empolgado quando faz a corte. Mas a empolgação desaparece, o desejo passa, uma mistura de culpa e chateação aflora. É hora de ir embora. Às vezes, porém, muda o roteiro. Nessas raras ocasiões os homens têm vontade de ligar e dizer coisas doces. O sujeito – ou a mulher – se põe a fazer planos inconfessáveis de tão precoces. Na hora do sexo, se pega dizendo romantismos. Esses são sinais de sentimentos duradouros. Pode ser o começo de um romance. A explicação simplista para o fenômeno é a química. A pele e o temperamento se combinariam para formar uma conexão. Mas eu não acredito nisso. Ao longo da vida as pessoas se envolvem com parceiros totalmente diferentes entre si. A qual química teria de ser muito flexível ou inteiramente mutável.
Prefiro acreditar em momento. A cada período da existência nós queremos algum tipo de coisa, que ganha a forma de uma pessoa. Pode ser ternura, pode ser firmeza, pode ser racionalidade ou maluquice. Provavelmente é uma combinação de qualidades e defeitos que formam uma receita de felicidade: você foi feita pra mim, a gente tem vontade de dizer.
E foi mesmo, não? Entre 6 bilhões de pessoas, num mundo cheio de gente, lá está ela, totalmente única. Para este momento da vida, seu sorriso. Para este momento da vida, sua delicadeza. Para este momento, a sensualidade dos seus pés quando me tocam. É o que se pode desejar. É bom. É frágil. É sobre isso que se constrói.

Ivan Martins

sábado, 10 de setembro de 2011

Encontro com o passado...



Nem sempre o passado provoca nostalgia. Às vezes, dar de cara com ele só traz alívio.
O sujeito está lá, feliz com a sua vida, quando recebe pela internet a foto de uma ex de olhos siderados, copo na mão, enroscada num cara no meio da balada. Ao ver as formas e o rosto conhecido, ele instantaneamente leva a mão à boca, num gesto de susto e autocomiseração.
Mas isso dura menos de um segundo.
É tempo suficiente para ele lembrar que não tem mais nada a ver com aquilo – que aquele furacão de álcool e extravagância já não é mais da conta dele.
Com um suspiro de gratidão indefinida, ele observa a imagem na tela enquanto lembra que a moça, embora linda e arrebatadora, era uma dor de cabeça que não dói mais nele.
Quem é capaz de se identificar com essa história?
Eu sou. E acho que muitos serão.
Cada um de nós já teve experiências de convívio carregadas de ambiguidade. Você gosta da pessoa, às vezes ama, mas, junto com as coisas que você deseja ou admira nela, percebe traços de personalidade, manias ou comportamentos que são simplesmente insuportáveis. É bom livrar-se deles, embora não seja gostoso separar-se do que você ama nas pessoas.
Eu, por exemplo, não suporto gente intolerante, arrogante, belicosa. Mas já convivi com isso bem de perto, numa pessoa que tinha qualidades admiráveis. Foi traumatizante. Desde que essa relação acabou, faço questão de acordar ao lado de gente com menos certezas e pedras na mão. Tem sido bom assim.
Com as mulheres acredito que acontece o mesmo.
Uma delas me dizia outro dia como foi chegar na casa de um amigo e dar de cara com o ex- namorado embriagado se comportando como um escroto na frente da nova namorada – exatamente como fazia com ela. “Deu raiva dele, deu pena da garota, mas a alegria de estar livre daquilo foi bem maior”, me disse a amiga.
Nem sempre é assim tão claro.
Às vezes o que está errado numa pessoa é como certos barulhos no carro que vão e voltam. Algo está lá, incomodando, mas você não consegue perceber o quê, exatamente. Apenas meses ou anos depois, já na condição de amigo, ou pelo menos de ex, fica claro, repentinamente claro, qual era a origem do ruído.
Você olha para a aquela mulher encantadora e falante e percebe a crônica incapacidade dela em se mover em qualquer direção.
Ou então se dá conta da tristeza, quase depressão, que emana dela e que pairava sobre a relação de vocês como uma névoa.
Ou então nota, por trás da polidez, a insistência dela em falar de si mesma, como se ninguém mais importasse.
Ou a frequência exasperante com que ela menciona fulano, um antecessor que já era antigo ao seu tempo, mas que parece não ter sido esquecido.
Nessas ocasiões, a gente entende por que acabou, por que não deu certo, por que não tinha de ser.
O tempo ajuda a perceber sutilezas. Ele nos ajuda a ver através das pessoas e raramente o mito delas resiste a esse olhar objetivo e desapaixonado.
É bom que seja assim.
Se o seu ex era um controlador ególatra ou um quarentão indolente que precisa de mãe, é importante perceber. Ajuda a olhar para frente. Faz com que a vida ande. Permite entender que as coisas que aconteceram no passado tinham lá seus motivos. Permite olhar para a foto da ex na internet e dar uma boa gargalhada – sem o menor sentimento de perda.

Ivan Martins

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Quando o amor é distração...



Depois de algum tempo, que varia de pessoa para pessoa, é inevitável que a gente tenha a sensação que já fez de tudo e que a vida – aquela de todos os dias, ano após ano – está se repetindo. Quando eu tinha 17 anos, um dos meus melhores amigos, um ano apenas mais velho do que eu, decidiu se casar. Durante a conversa que tivemos sobre isso, argumentei que a decisão era pra lá de precoce, mas ele respondeu, cheio de si: “Eu sinto que já fiz de tudo.”
Os tempos mudam, mas algumas coisas permanecem.
Nos anos 70, quando essa conversa aconteceu, havia pressa entre os garotos em tornar-se homens. Para alguns, como esse amigo, mais conservadores, isso se dava por meio do casamento. Você provava ao mundo e a si mesmo que havia crescido ao entrar na igreja e ter um filho, preferencialmente com um intervalo de alguns meses entre uma coisa e outra.
Hoje em dia talvez seja o contrário. Há uma determinação coletiva em esticar a adolescência além do limite razoável. A sensação predominante, aquilo que alguns chamam de espírito do tempo, é que nós todos viveremos como Oscar Niemeyer ou Domingos de Oliveira. Talvez mesmo como Matusalém, aquele personagem bíblico que bateu sandálias aos 969 anos. Com frequência eu escuto conversas assim: “Eu tenho 25anos, sou moleque, mas…” Obviamente mudou a idade em que as pessoas sentem que cresceram.
O que não mudou desde a calça boca de sino foi a maneira que as pessoas escolhem para mudar a vida. Quando as sensações estão se repetindo, quando um ciclo aparentemente se esgotou, elas se apaixonam. Temos até uma frase para explicar isso: quando estamos prontos, a pessoa certa aparece. A “pessoa certa” varia de uma vida para outra, mas a função dela, eu acho, é sempre encerrar uma etapa e dar início a outra. Recomeçar.
O motivo é simples: a paixão nos dá a sensação de voltar ai zero. Ou quase. Eros, na mitologia grega, não encarna apenas a força brutal do amor e do erotismo. É também o deus da natureza, com seus ciclos indomáveis de morte e renascimento. Estar apaixonado é florescer, tanto quando se entorpecer ou enlouquecer. Meu amigo percebia isso aos 18 anos. Pegou carona na energia da paixão para mudar a vida na direção que imaginava correta. Um novo amor, um novo começo, a possibilidade de uma nova vida. Quem nunca embarcou nessa?
Mas eu vejo um problema com essa forma de mudar as coisas: a energia da paixão é ambígua. Ela pode ajudar a promover mudanças reais ou pode encobrir, sob uma camada de novidade e erotismo, a vontade de mudança que não se realiza em outros aspectos da vida. O amor pode ser ação, mas pode ser apenas distração.
Escrevo isso porque, frequentemente, tenho a sensação de que transferimos para o amor a responsabilidade por milagres que ele não tem capacidade de operar.
É comum, por exemplo, estar tão enfastiado com o trabalho que a vida pareça insuportável. Quem pode ser feliz fazendo o que não gosta todos os dias? Ou indo a um lugar onde não gostaria de estar? Ou tratando diariamente com pessoas que não gostaria de ver?
Mas é igualmente comum que, em vez de tentar alterar esse aspecto essencial da existência, as pessoas se atirem a mudanças de outra ordem, sobretudo afetivas, em busca de uma satisfação que será necessariamente temporária e que não vai mudar em nada o problema essencial. Eu já fiz isso e já vi dezenas de pessoas fazerem igual.
(Minha sensação é que as pessoas práticas, aquelas capazes de mudar com mais eficiência os aspectos materiais da sua existência, têm menos necessidade de revolucionar seu mundo afetivo a cada par de meses ou anos. Elas se renovam mudando outros aspectos da vida.)
Há também a paixão que nos consola das nossas questões interiores. Das nossas dores permanentes. Da nossa ansiedade intolerável. Por algum tempo ela nos distrai de nós mesmos. É uma fuga que tende a se repetir. Gente angustiada e sedutora faz isso o tempo inteiro: troca de parceiro e de paixão sem conseguir trocar o essencial em si mesmo. Eu já conheci gente assim, você também. Um belo dia elas acordam, percebem que a velha dor está lá, e vão embora, atrás de outra paixão que consiga preencher o buraco impreenchível.
Qual é a moral dessa história?
Que talvez tenhamos de desconfiar de nós mesmos (e de nossas razões) mesmo quando estivermos sendo levados ao céu pelo anjo inesperado e providencial da paixão. Se o anjo aparece toda vez que a vida se torna insuportável, talvez não passe de uma requintada muleta com asas. Ou de uma ilusão. Quem sabe um analgésico.
O meu amigo decidiu que já tinha vivido tudo aos 18 anos e que a paixão e o casamento resolveriam suas angústias de adolescência. Obviamente ele era um tolo e as coisas não aconteceram como ele previa. A maioria de nós fez 18 anos há muito tempo, mas, de uma forma silenciosa e quase inconfessável, muitos continuamos esperando que o amor (o próximo amor, o casamento, ou aquele cara…) vá solucionar, repentinamente, nossa vida. Eu acho que não acontece assim. Pelo menos comigo não tem acontecido.

Ivan Martins

sábado, 3 de setembro de 2011

O amor bom é facinho...


Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?
Eu suspeito que não.
Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói.
Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade de lutadores, não somos? Temos de nos esforçar para obter recompensas. As coisas que realmente valem a pena são obtidas à duras penas. E por aí vai. De tanto ouvir essa conversa – na escola, no esporte, no escritório – levamos seus pressupostos para a vida afetiva. Acabamos acreditando que também no terreno do afeto deveríamos ser capazes de lutar, sofrer e triunfar. Precisamos de conquistas épicas para contar no jantar de domingo. Se for fácil demais, não vale. Amor assim não tem graça, diz um amigo meu. Será mesmo?
Minha experiência sugere o contrário.
Desde a adolescência, e no transcorrer da vida adulta, todas as mulheres importantes me caíram do céu. A moça que vomitou no meu pé na festa do centro acadêmico e me levou para dormir na sala da casa dela. Casamos. A garota de olhos tristes que eu conheci na porta do cinema e meia hora depois tomava o meu sorvete. Quase casamos? A mulher cujo nome eu perguntei na lanchonete do trabalho e 24 horas depois me chamou para uma festa. A menina do interior que resolveu dançar comigo num impulso. Nenhuma delas foi seduzida, conquistada ou convencida a gostar de mim. Elas tomaram a iniciativa – ou retribuíram sem hesitar a atenção que eu dei a elas.
Toda vez que eu insisti com quem não estava interessada deu errado. Toda vez que tentei escalar o muro da indiferença foi inútil. Ou descobri que do outro lado não havia nada. Na minha experiência, amor é um território em que coragem e a iniciativa são premiadas, mas empenho, persistência e determinação nunca trouxeram resultado.
Relato essa experiência para discutir uma questão que me parece da maior gravidade: o quanto deveríamos insistir em obter a atenção de uma pessoa que não parece retribuir os nossos sentimos?
Quem está emocionalmente disponível lida com esse tipo de dilema o tempo todo. Você conhece a figura, acha bacana, liga uns dias depois e ela não atende e nem liga de volta. O que fazer? Você sai com a pessoa, acha ela o máximo, tenta um segundo encontro e ela reluta em marcar a data. Como proceder a partir daí? Você começou uma relação, está se apaixonando, mas a outra parte, um belo dia, deixa de retornar seus telefonemas. O que se faz? Você está apaixonado ou apaixonada, levou um pé na bunda e mal consegue respirar. É o caso de tentar reconquistar ou seria melhor proteger-se e ajudar o sentimento a morrer?
Todas essas situações conduzem à mesma escolha: insistir ou desistir?
Quem acha que o amor é um campo de batalha geralmente opta pela insistência. Quem acha que ele é uma ocorrência espontânea tende a escolher a desistência (embora isso pareça feio). Na prática, como não temos 100% de certeza sobre as coisas, e como não nos controlamos 100%, oscilamos entre uma e outra posição, ao sabor das circunstâncias e do tamanho do envolvimento. Mas a maioria de nós, mesmo de forma inconsciente, traça um limite para o quanto se empenhar (ou rastejar) num caso desses. Quem não tem limites sofre além da conta – e frequentemente faz papel de bobo, com resultados pífios.
Uma das minhas teorias favoritas é que mesmo que a pessoa ceda a um assédio longo e custoso a relação estará envenenada. Pela simples razão de que ninguém é esnobado por muito tempo ou de forma muito ostensiva sem desenvolver ressentimentos. E ressentimentos não se dissipam. Eles ficam e cobram um preço. Cedo ou tarde a conta chega. E o tipo de personalidade que insiste demais numa conquista pode estar movida por motivos errados: o interesse é pela pessoa ou pela dificuldade? É um caso de amor ou de amor próprio?
Ser amado de graça, por outro lado, não tem preço. É a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (no trabalho, na balada, nas férias, no churrasco, na casa do amigo) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações? Neste momento eu não consigo me lembrar de nada.

Ivan Martins