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sábado, 28 de janeiro de 2012

Conselho a um jovem filho...



Meu filho, você deve estar achando demais uma carta do seu pai de muitos anos atrás. Eu, provavelmente, não sou tão irresponsável nem inconsequente como eu era. E nem tão romântico assim também. As coisas mudam e aposto que hoje em dia eu sou um daqueles caras que te mandam ir dormir antes das duas da manhã e passa a noite ligando pra saber com quem você está. Não te empresto a chave do carro e suspendo a sua mesada quando você me diz que reprovou em alguma matéria da faculdade ou do ensino médio. Eu já devo ter tido aquela conversa sobre sexo com você e te deixei tão constrangido quanto eu me senti enquanto falava. Já devo ter te dado conselhos sobre livros e profissões e devo ter te apoiado na escolha da carreira que você quer seguir. Seja a carreira de astronauta ou de mágico, de ilusionista ou escritor, de advogado ou médico. Eu sei que eu devo ter estado todo esse tempo do seu lado.
Mas, veja bem, eu quero te dar um conselho sobre alguns assuntos em especial. E esse conselho eu não poderia te dar em outra idade senão essa. É nesses nossos vinte e poucos anos que a gente vive tudo o que tem pra viver no limite da realidade. A gente bebe tanto e não sabe por que, a gente sorri tanto sem nem ter motivo direito, a gente se confunde com o caminho e tem como voltar atrás porque ainda dá tempo. Eu devo te dizer por esses dias que é bom ter certeza do caminho pra não querer voltar atrás. Bom, na verdade eu acredito que voltar atrás é reconhecer um erro ou refazer uma escolha. É cansativo, traz novas perspectivas e desanima. Mas se for pra melhor, meu filho, faça isso. E você vai se arrepender muito menos de ter voltado do que ter seguido pela direção errada. Escolher uma carreira é se projetar num futuro desconhecido. Por isso, faça sempre o que você gosta independente do que eu diga. Sua mãe vai te apoiar, eu sei. Nesses dias em que você me lê eu devo estar louco com essa coisa da vida adulta de querer estabilidade o tempo todo. Devo ter perdido aquele olhar sobre as coisas que são instáveis de uma forma bonita. Não devo ter deixado de acreditar em sonhos, mas devo tê-los deixado embaixo do travesseiro na hora de acordar pra vida. Sonhe, meu menino. E sonhe alto. Melhor cair de uma altura considerável do que se machucar tropeçando nos próprios pés. Vão admirar a sua coragem de ter subido tanto e vão admirar mais ainda a sua coragem de levantar do chão e abrir um sorriso.
Abra um sorriso sempre que gostar de alguém. Sorrisos cativam e eu aprendi isso meio tarde demais. Mesmo nas festas dos meus dias de hoje, enquanto eu ainda celebrava a juventude com brindes e meninas bonitas, não sabia do valor de um sorriso. Até que conheci uma menina com o sorriso mais lindo do mundo que me ensinou a sorrir. Além de uma forma de educação é também uma artifício de conquista. Aliás, encare conquistas amorosas como quem encara batalhas épicas. Seduza, conquiste e saiba deixar ir. Não brinque com o coração de quem te faz bem e nunca pense em se divertir com as meninas certas. As meninas erradas vão te ensinar muito mais sobre amor do que qualquer filme Hollywoodiano da sua época. Reveja os clássicos e aprenda como Don Juan era um canalha desprezível que conquistava todo mundo e tente não ser igual a ele, mas chegue perto de poder ser reconhecido em qualquer lugar que entrar por seu charme. Apaixone-se. E de verdade. Apaixone-se uma, duas, três e muitas vezes. Apaixone-se e conte isso pra alguém, fique bobo por uns dias, gaste milhões de mensagens de celular. Se isso ainda existir, é claro. E quebre a cara mais vezes ainda para saber reconhecer e dar valor às pequenas promessas sinceras de amor que receber.
Tenha contatos. A vida é feita das pessoas que você conhece e que podem te ajudar em algum momento. Mais importante que os contatos, são os amigos. Tenha os poucos e melhores ou muitos e bons. São eles que vão te levar no colo quando você voltar bêbado de alguma festa e tiver que mentir pra mim sobre isso. São eles que vão te ouvir chorando por alguma menina ou te livrar de apanhar do namorado ciumento de uma delas. São eles que vão enlouquecer com você na pista de dança e rir de fotografias bizarras. Seja amigo e seja leal. Lealdade é mais importante que fidelidade e as pessoas conseguem confiar em quem é assim. Não minta muito, mas minta. Mentir sobre algumas coisas e fantasiar outras faz bem pra criatividade e vai te meter em furadas que te farão crescer. Ah, e leia. Leia muito. Leia tudo. Leia até as redes sociais de quem você não gosta. E mantenha os inimigos longe, porque manter por perto é um grande risco que não se deve correr. Mantenha os amores por perto, mas lembre-se que há uma grande possibilidade de recaída.
Divirta-se.

Isso é o que realmente importa.

Daniel Oliveira

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Volte a bordo!

 
 
Como colocar o barco de novo em movimento...
 
Volte para o navio, cacete!, e tente reescrever a cena de como estava tudo antes de começar o naufrágio. Sem pânico. Não telefone ao comandante dos portos para dizer que está tudo escuro e que você, socorro!, sente muito medo de não ter mais o controle da situação. Acontece. É da vida de quem se põe ao balanço do oceano. Um dia ele nega os peixes com que você alimentava a Musa protetora. Vire-se.
Você está só na noite imensa, ninguém canta
a música inspiradora, o lullaby do boi da cara preta. O barulho dos polvos se aproximando espanta qualquer ideia de salvação. É o vazio, o vazio e o vazio. Só lhe resta voltar a bordo e vibrar o último fósforo. Acender a derradeira vela para refazer os passos de onde estávamos quando a sirene tocou o alarme de que havia água no porão, e ela já causava o embotamento parcial no casco do cérebro.
Caminhe sobre suas próprias pegadas, de preferência as que ainda estão secas, em brasa incandescente. Aquelas que pelas sensações radicais, de ódio ou amor, fazem você se lembrar de tudo. Ali estão, nos lugares de sempre, a coleção do Cavaleiro Negro, a palheta do B.B. King que você pegou num show e o frasco com o perfume da flor da noite que vem da rua onde nasceram as suas filhas. Tudo isso ainda está no navio, e mais os beijos, as traições, os esqueletos de amores vãos, empilhados no fundo falso do corredor. Eles sussurram a canção do “Vingança, vingança aos santos clamar”. Às vezes, você ri. Outras, chora.
Está tudo lá, no velho navio encarquilhado que já foi seu umbigo vistoso, água por todos os cantos, e é preciso traçar o caminho de volta ao controle da situação. Use a memória das migalhas de pão da infância. Abra a pasta de couro da escola e comece de novo. Tente aquele exercício de colocar uma gravura na frente dos olhos e escreva primeiro uma “descrição”, depois, uma “dissertação”. Foi a primeira aula, na primeira escola, o princípio de tudo. Em seguida você singrou mares, escreveu a própria carta náutica jogando nela os perfumes, os sabores e as idiossincrasias que encontrou pelo caminho. Não desista. O importante é voltar a bordo, estúpido! Não se jogue ao mar, em botes covardes e sem imaginação, no primeiro solavanco das ondas. Salve-se com estilo. Procure nas gavetas o caderninho azul onde você anotou a história, que lhe foi contada como real, da grande atriz dramática do Cinema Novo. Em pleno intercurso sexual, ela foi até a janela do edifício de Copacabana e gritou em homenagem ao parceiro, ainda pregado nela, que pusesse a cama na rua — eram os tempos do populismo do Jango — e ensinasse o povo a trepar. As histórias estão no navio do jeito que sempre estiveram. Elas esperam que você se acerte com o farol das vírgulas, ajuste a bússola da semântica e as conduza com carinho ao porto seguro que tiver feito a encomenda.
Volte ao leme, canalha desesperado!, e deixe de fricote. Pare de soluçar que não vai conseguir, que dessa vez a polícia costeira vai chegar, só porque a divina Musa dos mares não respondeu com a pressa de antes. Faz parte da vida de quem navega. Às vezes, falta vento. Ela se negou a dizer — barco afundando, arraias entrando pelos pulmões — como dar a volta nessa falta de imaginação? Faça você mesmo. Assopre as velas.
Anote o que estiver à vista no convés, mesmo que não lhe faça nexo, e pode ser que daí surja o SOS para desvirar o navio. Não há fórmula exata, reinvente a sua. Você viu centenas de vezes o cangote raspado da Jean Seberg, você se arrepiou com as orações que os alto-falantes jogavam sobre a velha Istambul, você apertou a mão do Mick Jagger e lhe disse, sacana, na entonação da música, “Please to meet you”. O que você quer? Quantos amores ainda serão necessários para voltar a inspiração?
Volte a bordo e alimente as máquinas com o carvão dessas histórias. Não há outro combustível possível ao navio de cada um além dos jacarés que se mexiam sob a própria cama da infância, os santos tristes escondidos pela família no Dia de Finados. Volte a bordo, comandante!, e faça o que lhe é inerente. Fogo nas caldeiras das ideias. Uma noite, no cinema, a sua mão desceu trêmula pelo decote da primeira namorada. Outra noite, você perdeu o chão quando leu Manuel Bandeira, e ele dizia que ao encontrar Tereza não viu mais nada, os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Lembre-se que cada comandante move-se com a energia que embarcou pelos portos da vida. Ao chegar de volta a bordo, na dificuldade de retomar o controle, use da experiência dos lagartos que você viu no Jardim Botânico. Eles correm e param. Na verdade, correm, param e olham, depois voltam a correr. De vez em quando, lançam a língua num inseto e voltam ao que sabem fazer. Correm, param, olham e se deixam confundir com as tramas do arvoredo. Por fim, desaparecem atrás de alguma pedra para anotar em paz as curiosidades que observaram no parque — e repensam a vida.
Volte ao barco, caramba!. Já que, da proa à popa, lhe fugiram todos os heróis, do Capitão Furacão ao Mike Nelson, do Gay Talese ao Rubem Braga, revire os bolsos da calça e tire de lá a filosofia dos lagartos do parque. Junto virão o canivete suíço que os pais davam no início da adolescência; a foto, nua, de uma mulher linda que você já esqueceu o nome; um bilhete do Millôr dizendo que você é capaz, sem se confundir, de misturar alhos com bugalhos na sabedoria de que é tudo a mesma coisa.
Escreva em fluxo contínuo as palavras que estavam sendo sussurradas até que houve o apagão da crise e as vozes ao seu ouvido, antes tão claras e generosas, se calaram.  Borogodó, bunda, isonomia, bálsamo, sândalo, apoplexia, descalabro, murucututu. Pode ser que uma dessas seja a senha a ligar novamente os motores, a chave de uma carta náutica ou apenas o mote para uma mensagem na garrafa do náufrago. Não importa. Volte a bordo, cacete! — e ponha o que for, o barco, a crônica, a vida, de novo a navegar. 
 
Joaquim Ferreira dos Santos

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O que valeu a pena no seu dia? O que valeu a pena hoje?



Sempre tem alguma coisa. Um telefonema. Um filme… Paulo Mendes Campos, em uma de suas crônicas reunidas no livro ‘O Amor Acaba’, diz que devemos nos empenhar em não deixar o dia partir inutilmente. Eu tenho, há anos, isso como lema.
É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa.
Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.
Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida.
Mas para quem valoriza apenas as mega vitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu super apartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado. Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes.
Sábado, fiz um treino muito bom! Curti o belo visual da Lagoa da Pampulha, fiquei feliz em ver os colegas treinando e atingindo seus objetivos. Fui pra casa com a sensação de dever cumprido!
Um domingo que valeu o orgulho de acompanhar o marido e irmã, em busca de sua primeira medalha na 4ª Corrida e Caminhada de Bem com a Vida, do TJMG e que me fez querer treinar mais e mais para em breve, tentar os 10km.
Na segunda-feira, meu dia não foi em vão porque mesmo estando com a garganta inflamada e de péssimo humor, recebi declarações lindas de amor.
Na terça-feira, o dia foi ganho porque tive notícias de uma companheira pós-operada da redução de estômago, que está iniciando seus preparativos para as primeiras cirurgias plásticas reparadoras.
E hoje, o dia não partiu inutilmente, só por causa de um biscoito passatempo.
E assim correm os dias, presenteando a gente com uma medalha, uma bela paisagem, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.
Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado.
Pois estou pra dizer que até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde tudo se justifica.
É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã…
E aí, te pergunto: O que valeu a pena no seu dia? O que valeu a pena hoje?

Martha Medeiros

domingo, 8 de janeiro de 2012

Com você é diferente...




Talvez haja homens que sejam os mesmos com todas as mulheres, mas eu duvido. Uma das grandes experiências humanas é perceber – no olhar, na conversa, na cama – que estamos diante de uma pessoa diferente e que tudo mudou. Os velhos hábitos não valem. Os truques de sedução e as fórmulas de reconciliação têm de ser redescobertas. É preciso começar de novo – por isso cada paixão faz de nós pessoas diferentes.
Mas essa não é a percepção geral das mulheres.
Tente explicar à sua nova namorada que você não é exatamente o sujeito que ela olhava de longe e de quem ouviu falar pela rádio peão. Tente dizer a ela que, para o bem ou para o mal, com ela você é outro sujeito: menos atrevido, menos engraçado, menos imprevisível, talvez. Ao mesmo tempo mais romântico, mais leal, sexualmente mais intenso.
Experimente contar a ela que o sexo cinco estrelas (e um Big-Bang) a que ela está se acostumando não existia dois meses atrás, quando você a conheceu. Diga que a máquina sexual em que você se transformou, (cheia de energia, audácia e imaginação), estava guardada num porão há 30 anos, esperando que ela entrasse na sua vida. Conte a ela que você nunca foi um fauno e que agora está surpreso com a temperatura a que água tem chegado.
Ao dizer essas coisas, ao sair do seu casulo de reclusão masculino e admitir que você não é super-homem na ausência dela, talvez você se depare com a incredulidade. “Ah, você diz isso pra todas”, algumas respondem. Pois eu garanto, meninas, que não é assim. Nem todas as mulheres que passam pela vida de um homem ouvem esse tipo de confissão. Quando o sujeito, depois de um tempo de convívio (e de romper várias camadas de intimidade), usa a frase mágica – “Com você é diferente” – acredite nele. Há uma chance enorme de que seja verdade.
O sujeito tem de ser emocionalmente muito burro, quase uma anta, para não se deixar tocar pela diferença. Imagine o cara que transa de um certo jeito com Maria e faz do mesmo jeito com Joana e Tereza. Ele pode ser muito bom de serviço, mas, se entregar sempre a mesma mercadoria, no mesmo pacote, na casa de várias mulheres diferentes, vai deixar várias delas insatisfeitas. E passar por autista. Eu não consigo imaginar algo que precise ser mais à la carte do que sexo.
Claro, cada um de nós, homens e mulheres, repete padrões íntimos. Temos um repertório emocional e físico que tende a reaparecer. Há um estilo e um sotaque na forma de transar, na forma mesma de se relacionar. Isso é parte da nossa personalidade, que vai se definindo com o tempo e com a experiência. Mas essa coreografia sexual não é imutável, algo que se execute independentemente da parceira. Cada transa – ou cada pessoa – tem sua própria música, e o nosso corpo se adapta a ela, se souber escutar. O bom sexo talvez seja o encontro de dois ritmos intimamente compatíveis, ainda que diferentes entre si.
Num mundo como o nosso, em que se transa com muita gente, não é fácil cultivar a afinidade. Hoje é com João, daqui a pouco é com Antônio, dentro de alguns dias, quem sabe, com José. Não dá tempo para descobrir compatibilidades que não sejam instantâneas. Não se consegue avançar além do óbvio, não se passa da arrebentação. Pode ser gostoso, mas tende a ser parecido e superficial. Cada um entra em campo com as fórmulas que trouxe do passado e se protege atrás delas. Primeiras transas revelam muito pouco, no máximo dão pistas. Quem fica sempre na primeira transa não passa da ante-sala dos outros e de si mesmo.
A conversa em que o sujeito admite que nunca teve um sexo tão gostoso só aparece lá na frente. Requer tempo, relaxamento, entrega. O cara (ou a garota) precisa perceber que está diante de algo especial, e tem de ter espaço para contar. Não é tão fácil nos dias que correm. As relações são muito rápidas e as pessoas ficaram duras. Muitas não querem escutar, não querem saber. Uma declaração de amor – ou uma declaração de prazer – põe o outro na sua vida. Para alguns, pode ser uma intimidade intolerável.
Se você não é assim, se você abriu a porta para que o seu namorado entrasse, dê crédito quando ele disser que você é única. Acredite quando ele, com cara de menino, contar que nunca foi tão gostoso, nunca foi tão intenso, nunca foram tantas vezes num mesmo fim de semana. Aceite o fato que, apesar da fama de safado e da óbvia competência que ele exibe, você é especial para ele – embora nem sempre você mesma se sinta muito especial. Uma das vantagens de se viver no século 21, neste pedaço do planeta em que homens e mulheres são relativamente livres, é poder andar por aí e descobrir, depois de muitas tentativas e alguns erros, uma chave que combina melhor com a sua porta – um corpo, uma voz e um desejo que parecem ter sido feitos para você. Quando isso acontecer, avise. Quando ouvir a mensagem, acredite. A felicidade não é permanente, mas existe.

Ivan Martins

sábado, 7 de janeiro de 2012

2012, me surpreenda...



As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ Ano-Novo é uma convenção. Os dias correm em sequência. De 31 de dezembro para 1º de janeiro ocorrerá apenas mais uma sucessão de 24 horas em que nada mudará, tudo seguirá do mesmo jeito. Pois é, sei disso, mas é um ponto de vista sem nenhuma alegria. Sou das que compram o pacote de Ano-Novo com tudo que ele traz em seu imaginário: balanço de vida, reafirmação de votos, desejos manifestos e esperança de uma etapa promissora pela frente.

Faço lista de projetos e tudo mais. Só que, quando chega o fim do ano e avalio o que consegui cumprir, descubro que o inesperado superou de longe o esperado. As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ. Então tomei uma decisão: nessa virada, não vou planejar coisa alguma e aguardar as resoluções que 2012 tomará para mim, à minha revelia.

Mas poderia dar algumas sugestões?

2012, anote aí: que as coisas mudem, mas não alterem meu estado de espírito. Não deixe que eu me torne uma pessoa ranzinza, mal-humorada, desconfiada, sem tolerância para as diferenças. Aconteça o que acontecer, que eu me mantenha aberta, leve e consciente de que tudo é provisório.

Não quero mais. Quero menos. Menos preocupações, menos culpa, menos racionalismo. Pode cortar os extras. Mantenha apenas o estritamente necessário para me manter atenta.

Está anotando?

Espero que você esteja com ótimos planos para sua amiga aqui. Lançarei livro novo? Permita que eu seja abusada: dois. Sendo que nenhuma coletânea de crônicas, nem romance. Me ajude a variar.

Que lugares conhecerei que ainda não conheço? Que pessoas entrarão na minha vida que, quando cruzo com elas na rua, ainda não as identifico? Que boas notícias ouvirei das minhas filhas? Quantos shows terei o prazer de assistir? Estou curiosa para saber o que você está aprontando para incrementar os meses que virão.

Prometo que estarei preparada para receber o abraço afetuoso de quem antes me esnobava, para a frustração por tudo o que for cancelado, para voltar atrás nas minhas teimosias, para me dedicar a algo que nunca fiz antes.

Estarei disposta a tirar de letra os espíritos de porco e assumir a responsabilidade pelas asneiras que eu mesma cometer. E estarei pronta também para uma grande surpresa, ou até duas. Três, meu coração não aguenta.

Se a dor me alcançar, que me encontre com energia e sabedoria para enfrentá-la. Que eu não me torne dura diante dos horrores, nem sentimentaloide diante das emoções. 2012, os acontecimentos são da sua alçada. Da minha, cabe recepcioná-los com categoria.

Quais são seus planos para mim, afinal? Talvez nem todos sejam do meu agrado, portanto, que eu não tenha constrangimento em dizer “não, obrigada”, caso seja preciso. Mas que eu me sinta mais predisposta para o sim.

Se estamos de acordo, pode vir.


Martha Medeiros