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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O conforto do outro...



Viver sozinho é uma opção moderna. O sujeito não é acordado pelo despertador dos outros, volta para casa na hora que quer e vê o que deseja na televisão. Nunca tem de interromper a leitura para escutar a última história sobre a família, o trabalho ou os amigos de ninguém. Se em algum momento estiver carente, tenta encher o quarto com o corpo e as ideias de uma mulher de quem ele goste. Temporariamente.
Vale o mesmo para as mulheres, claro. Muitas vivem perfeitamente à vontade com o silêncio, o vinho e os cosméticos de quem está sozinha. Cozinham para ela e as amigas, assistem duas temporadas inteiras de uma série no fim de semana e, se der vontade, arrumam companhia com mais facilidade do que os homens. Desde a invenção da internet, até o delivery de sexo por meio dos sites de relacionamento ficou fácil. Nem precisa mais sair de casa.
Ainda assim, as pessoas se juntam, namoram e passam a dormir juntas todos os dias. Diante dos confortos e facilidades da vida urbana, essa atitude às vezes me parece um mistério. Por que abrir mão da enorme e promissora liberdade do século 21 para se confinar ao espaço de um único relacionamento, que tende a ser mais estreito e mais restrito do que qualquer arranjo solitário? Supondo que os envolvidos não queiram ter filhos, claro. Se quiserem, é outra história. Até hoje, ninguém inventou um ambiente melhor para criar filhotes humanos do que uma casa em que haja dois adultos dividindo essa pesada responsabilidade.
Mas pouca gente pensa em filhos quando começa um relacionamento desses em que se dorme junto toda hora. Elas querem outra coisa quando se metem na casa dos outros ou permitem que os outros se metam na casa delas. Se você perguntar, dirão que é algo grandioso como amor ou compromisso. Eu duvido. Essas palavras representam abstrações intangíveis na vida real, enquanto as nossas decisões diárias são baseadas em elementos concretos da existência. Mesmo que isso seja inconsciente. Dou exemplos:
Quando as pessoas dizem amor, elas estão pensando, concretamente, em sexo e companhia constante. É isso que um relacionamento sólido garante. Alguns dias por semana, ou todos os dias, você tem assegurada a presença física de alguém de quem gosta – e pode fazer várias coisas com esse corpo querido.
Pode tomar banho com ele, dormir encostado nele, transar com ele do jeito que gosta ou mesmo amarrar e bater, se você for da turma dos Cinquenta Tons de Cinza. Isso do ponto de vista estritamente físico. Mas um corpo, claro, tem também um cérebro com informações e capacidade analítica. Essa parte neurológica da sua companhia pode ser usada para lembrar o nome de um filme, discutir seus projetos profissionais, refletir sobre os seus sentimentos conturbados ou para esclarecer um detalhe do processo do Mensalão que você não entendeu. Não se pode deixar de lado, evidentemente, a função social do corpo parceiro. Você pode viajar com ele, levá-lo ao cinema ou almoçar com ele na sua mãe, aos domingos. Assim fica mais gostoso fazer coisas que de outro jeito você acharia aborrecidas.
As pessoas precisam de ajuda, aconchego, distração. Tudo isso vem no pacote físico do relacionamento. Se você não tem alguém na sua vida, vai fazer supermercado sozinho toda semana. O que pode ser pior do que isso? Cozinhar pode ser outra tarefa intolerável com apenas duas mãos. Falta quem lave as folhas, pique a cebola e guarde a louça depois do jantar. E não é só isso. Quem ajuda a colocar as malas no carro? Quem vai levar para casa o amigo que bebeu demais? Quem decide a cor da porcaria da parede e o formato da droga da pia do banheiro? Quem faz você rir do seu mau humor matinal? Quem abraça você se chegar em casa chorando depois de um dia de cachorro? Para isso tudo serve o namorado, a mulher, o corpo parceiro.

Acho que essas razões concretas, e não as palavras altissonantes, explicam por que as pessoas abrem mão da liberdade moderna para meter-se em relacionamentos. O conforto do sexo e da companhia constante não se consegue de outra forma. Não está à venda no supermercado e não tem no delivery dos sites de relacionamento. Para ter alguém enchendo a sua vida – e algumas vezes o seu saco – é preciso renunciar a parte da sua independência e do seu sossego, deixar que o outro invada o seu espaço com móveis esquisitos, conversa fiada e despertadores barulhentos. Faz parte. Quem já passou por isso sabe que nem sempre é sensacional, mas ultimamente, agora, esta manhã, tem sido indescritivelmente bom.

Ivan Martins

domingo, 5 de agosto de 2012

Noites de inverno...



É difícil sair da cama nas manhãs de julho. Do lado de fora do edredom há um mundo gelado e hostil. Do lado de dentro, calor e aconchego. Em outras épocas do ano isso talvez não fique tão claro, mas, no inverno, estar sozinho é uma forma diária e refinada de castigo. E a companhia do outro, que às vezes pode parecer supérflua, revela-se como coisa física e essencial. Em julho e agosto, calor humano é mais que uma metáfora.
Tenho a impressão, às vezes, que a nossa vida é composta de essencialidades subestimadas. O calor do corpo humano no inverno é uma delas. O prazer da companhia do outro quando se chega em casa, é outra. Sentar no sofá e ver televisão quase em silêncio, falando sobre as miudezas do dia. Ir mais cedo para a cama pelo prazer de estar lá, lendo ou namorando. Saltar da cama com pressa, para aproveitar, a dois, uma manhã ensolarada. Dormir até mais tarde, sem urgência alguma, para desfrutar um sábado friorento.

A gente não aproveita o suficiente essas coisas, eu acho. Um tempo enorme do nosso convívio é gasto ralhando com o outro sobre que ele ou ela fez de errado, ou se queixando do que o mundo lá fora fez com cada um de nós. Outra parte imensa do nosso tempo é perdida em tristezas sem razão, em suspeitas sem fundamento, em angústias de origem desconhecida, em culpas que nos perseguem como assombrações sem solução. A gente não gasta tempo suficiente com o corpo do outro, com o coração doce do outro, com a mente inquieta e criativa do outro. A gente não aproveita o outro como poderia, eu acho.
Talvez haja armadilhas na nossa natureza humana que atrapalham na hora de ser feliz. Uma delas é o hábito, associado ao desprezo pelos detalhes. O que está lá todo dia deixa de nos fazer feliz. Pequenas coisas que fazem a diferença na nossa vida também podem passar sem ser notadas. Algo dentro de nós clama por grandeza e novidade, de preferência todos os dias. Como se fosse possível, ou mesmo desejável, viver uma aventura a cada 24 horas, reinventar a vida a cada volta do relógio. Mas é isso que uma parte de nós reclama – ela quer novidades, confusão, heroísmo e lágrimas. Exige movimento e agitação como sinônimo de vida. O cotidiano suave e amoroso é percebido como a chatice a ser combatida.

Às vezes eu acho que isso é um problema neurológico. Ele impede centenas de milhões de pessoas de ficarem em paz com as coisas legais que estão ao redor delas. Em lugar do gozo, o problema neurológico instala dentro de nós os mecanismos da inquietação e da queixa. Em lugar da satisfação, a angústia. Evidentemente isso não acontece com todo mundo, mas quanta gente assim você conhece? Quanto de você mesmo não é assim?
Talvez seja uma coisa evolutiva. Vai ver que a felicidade – ou qualquer estado de contentamento e acomodação – é negativa no longo prazo. Vai ver que nós, humanos, precisamos estar ansiosos o tempo inteiro para nos mantermos vigilantes, atentos contra os riscos. Sempre em movimento, sempre famintos. Como está na moda explicar tudo com base na evolução da espécie, fica aqui a minha modesta contribuição para o darwinismo social: haveria um gene da infelicidade que zela pela sobrevivência de longo prazo da nossa espécie?

Na verdade, acho os determinismos biológicos bobagem. Tenho a impressão de que nós, coletivamente, escolhemos como queremos viver. É cultural. Nas últimas décadas, muitos de nós preferimos a inquietação em oposição à quietude. Nós escolhemos viver como bichos insatisfeitos em vez de viver como bichos felizes. Não nos educamos para apreciar as felicidades tranquilas da vida cotidiana. Talvez porque elas nos assustem. Talvez porque uma vida serena e repetida nos lembre estagnação e morte. Talvez porque os nossos valores sejam o do grande romance ocidental, em que sexo, romance e aventura culminam em uma morte dramática e prematura, como em Romeu e Julieta.
Qualquer que seja a razão, não nos preparamos para apreciar os prazeres cotidianos. Estamos sempre olhando para fora de um jeito sonhador, ou para dentro de uma forma exageradamente crítica. Assim cultivamos a insatisfação e a infelicidade. Assim perdemos os melhores momentos da vida dos outros, e da nossa.

Por isso eu gosto tanto da parte de dentro do edredom nas noites de inverno. Ela confere uma dimensão material e concreta aos nossos compromissos. Ela traduz, de forma gostosa e protetora, as nossas opções afetivas. Mostra que somos capazes de escolher, partilhar e proteger. Que sabemos apreciar o prazer e o conforto do nosso convívio. Ela é uma metáfora quentinha de uma parte importante e subestimada de nós – aquela que precisa do outro, que gosta do outro, que tem prazer na presença e no convívio com o outro. Aquela parte de nós que prefere ser feliz a reclamar.

Ivan Martins.