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sábado, 19 de novembro de 2016

O ponto de não retorno...


Chega um momento em que a pessoa que um dia amamos ainda é capaz de nos magoar, mas não será capaz de nos fazer feliz.

Eu me dei conta disso faz uns dias, durante um almoço com uma amiga que vive uma separação demorada e difícil. Ela contava o que sentiu ao ver seu ex com outra mulher, no Facebook. “Não daria para voltar com ele. Não é mais possível. Mas doeu tanto vê-lo com outra...”

Esse é o ponto de não retorno: a relação anterior ficou tão distante que não se pode mais voltar a ela. A única opção é avançar sozinho, torcendo para que outro amor apareça e nos ajude superar o ciúme e o ressentimento deixados pela separação.

Identificar esse momento delicado é ainda mais essencial para quem está num relacionamento apodrecido. Nele, o outro pode nos machucar e nós podemos machucá-lo, diariamente, mas ninguém é capaz de dar felicidade ao parceiro ou a si mesmo.

Se o convívio se resume a desentendimentos, frustrações e brigas, e se o sexo, quando acontece, vem recoberto por raiva e animalidade, como dois bichos que depois se envergonham um do outro, talvez as coisas tenham chegado ao ponto de não retorno: ninguém sabe o que virá pela frente, mas está claro que não resta nada atrás.

Muita gente passa os melhores anos da sua vida no inferno, sem perceber que o relacionamento chegou ao ponto de não retorno. Elas têm esperança, ou se acomodaram ao sofrimento, ou estão com medo de recomeçar. Mas, quando as únicas coisas que podemos trocar com o outro são raiva, dor e humilhação, é hora de partir. Ou de mandar partir.

Por que hesitamos tanto?

Temo que seja um legado familiar. Muitos de nós passaram a infância vendo os pais brigarem e se desrespeitarem. Inconscientemente, acreditamos que é assim que vivem os casais. Achamos que isso é amor. Se tivéssemos crescido num ambiente de carinho, erotismo e respeito mútuo, perceberíamos mais claramente os descaminhos de nossas relações. Mas não. Para muitos de nós, falta o aplicativo que permite diferenciar amor de ódio, abuso e doença. Temos de obtê-lo ao longo da vida, da maneira mais difícil: experimentando felicidade e sofrimento, e percebendo a diferença entre eles.

Localizar o ponto de não retorno não é suficiente para resolver nossos problemas, porém.

Minha amiga, aquela da foto no Facebook, exemplifica as dificuldades: desde a separação, há dois anos, ela conheceu uma dezena de caras, mas não se envolveu com nenhum deles. Continua conectada ao ex, que também está sozinho. Pareceria que eles se amam, mas não é o caso. Acabou. Ele foi embora porque não a queria mais. Ela o amava, mas, depois de tudo, sente que o sentimento se gastou. Espera alguém que inaugure um novo período em sua vida. Enquanto isso, os dois ainda estão emocionalmente conectados.

“Estou triste porque vou passar o Natal e o fim de ano sozinha, novamente, mas não gostaria de estar com meu ex”, ela me disse. “Quero alguém por quem eu esteja apaixonada, e que esteja apaixonado por mim. Quero começar o Ano Novo feliz.”

Quem não?

É por isso que a gente olha em volta e procura. No começo, em meio ao luto da separação, a gente não enxerga e não percebe ninguém. Só há sombras ao redor. Depois, devagarinho, os rostos vão saindo para a luz e a gente enxerga um sorriso, um olhar, uma voz. Então a gente tenta aqui, e descobre um abraço acolhedor. Ali, um beijo apaixonado. Acolá, uma conversa terna e inteligente. São pessoas inteiras, algumas lindas, que ainda nos parecem pedaços de gente. Aos poucos, porém, elas também vão se tornando inteiras – porque nós também nos tornamos inteiros – e é possível trocar, descobrir, experimentar. Um dia, aparece alguém que reúne tudo num único corpo, num único olhar, e que ocupa um novo espaço em seu coração. Um dia a gente diz de novo, eu te amo.

Mas, antes, temos de passar, sozinhos, pelo ponto de não retorno. Olhar para a praia, lá atrás, e perceber que não dará mais para voltar. Respirar fundo, sentir medo e avançar na direção do horizonte. Não será hoje, não será desta vez, que vamos nos afogar.

Ivan Martins

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