Loading...

domingo, 28 de junho de 2015

Orfandades...




Quem ama cuida. Quem ama não se ausenta e nem se esquiva. Quando as coisas ficam difíceis, estica a mão, oferece o ombro, abraça e conforta. Quem ama se faz presente, não sai do ar. Às vezes se sacrifica. O amor tem uma cláusula de irrevogabilidade. Se foi revogado não é amor. Já era.

Se isso lhe parece antigo, tem razão. As coisas não são mais assim. A modalidade de amor que praticamos é mais amena. Está ligada ao nosso futuro, à nossa carreira, a certa ideia de conforto e sucesso. É contingente. Virou uma forma de realização pessoal e social, não sentimento pelo qual pagamos um preço. Pelo amor não sacrificamos nada, só recebemos.

Desculpem se pareço triste, mas percebo ao meu redor - e dentro de mim - uma sensação pesada de orfandade, ligada à transitoriedade das coisas. Fui ver na internet e descobri que a palavra "órfão" vem do grego orphanos, que significa, literalmente, "privado" ou "desprovido". Não nos sentimos privados de proteção e carinho? Não estamos desprovidos da sensação de aconchego que torna a vida aprazível? Tudo a ver.

Sinto, na verdade, que vivemos orfandades simultâneas e múltiplas. A mesma tristeza que a morte dos pais provoca - a orfandade original - espalhou-se pela vida. Quando os amores terminam, quando os empregos acabam, quando as amizades estremecem, quando a família se afasta, nos sentimos da mesma forma: expostos e desprotegidos, solitários, à mercê do mundo... feito uma criança. Essas são as nossas orfandades.

Alguém dirá que sempre foi assim. Não creio. Havia no passado camadas de proteção entre o mundo e cada um de nós. Éramos parte de algo maior que nos abrigava. Hoje estamos sozinhos, ou quase. Há nosso amor, mas ele pode faltar. Existe a família, mas ela se resume a pais e filhos - um núcleo pequeno e frágil que pode a qualquer instante implodir. No trabalho, somos lutadores solitários. Em que parte do mundo nos juntamos a nossos iguais e nos sentimos parte de um todo? Nenhuma. Onde fica o oásis de paz e tranquilidade? Não há.

As relações afetivas já foram esse oásis, não são mais. Trocamos segurança por verdade e aventura. Somos deixados, trocados, esquecidos, superados. Assim como deixamos, trocamos, esquecemos, superamos. Muitas vezes. Tantas vezes. Tudo é intenso e provisório. Nada está assegurado. Não podemos realmente contar com isso. O que é sólido se desmancha no ar (para usar uma frase famosa) e avançamos - de cabeça erguida, em meio às nossas múltiplas orfandades, colhendo o riso e o gozo que se oferecem, retribuindo com a nossa alegria (que não morreu, hiberna apenas).

Estamos à espera de tempos melhores. Depois do inverno, o verão. Depois da noite, o sol. Ao vazio do nosso luto - qualquer que seja a sua causa - sucederá a plenitude. Reencontraremos o amor, a direção, a unidade refeita com o mundo e com nós mesmos. Um amor virá depois do outro, e com ele a vida nova. Enquanto isso, a melancolia. O intervalo terrível. Enquanto isso, o frio.

Há que ter paciência, portanto. Com os nossos sentimentos. Com a vida que escolhemos viver. Há que sentir-se órfão antes de recomeçar e renascer.

Ivan Martis

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A crise dos 30...




                          


Talvez seja apenas uma experiência pessoal, mas eu duvido. Ao redor de mim, sinto que outros homens são forçados a lidar com a mesma perplexidade: as mulheres se aproximam dos 30 anos e, repentinamente, tudo começa a mudar.

Outro dia, conversando com uma moça dessa idade, ela contou que nos meses anteriores havia rompido com o homem com quem morava, viajado para a Índia, mudado de emprego e de profissão e encontrado uma nova forma de viver, baseada na meditação e no autoconhecimento.

"Meu namorado achava que estava tudo bem, mas não estava", diz ela. "Eu estava em ebulição, sentada no sofá ao lado dele". Ela não tinha certeza sobre o que desejava, mas sabia que tinha de sair e procurar. Foi o que fez, diante do olhar atônito do parceiro. Não voltou mais.

O senso comum costuma relacionar esse comportamento - e essa crise - a uma única palavra: maternidade. Na curva dos 30, as moças começariam a ouvir o tic-tac do relógio biológico e passariam, mesmo de forma inconsciente, a avaliar seus relacionamentos e suas vidas na perspectiva de uma sala de parto. Ou, na frase imortal de uma ex-namorada minha, "se o cara não quiser ter filho, não dou nem beijo na boca".

Tenho certeza que a maternidade é coisa importante e que para muitas mulheres ela constituirá o centro palpitante das preocupações a partir de certo momento da vida. Mas não acredito que isso valha para todas. Nem acho que a maternidade resuma as ansiedades que afligem as mulheres quando se aproximam dos 30. Muitas deixam parceiros que querem casar e ter filhos porque não desejam isso. Não com eles, ao menos.

Honoré de Balzac - cujo romance A mulher de trinta anos ajudou a criar o termo balzaquiana - achava que os 30 anos marcavam "o ápice poético da vida das mulheres". O que ele queria dizer com isso? Nada muito elogioso.

Júlia, sua personagem principal, tomada pela insatisfação conjugal (e existencial, eu diria) envolve-se em sucessivos romances adúlteros que acabam por destruí-la. Balzac, é bom lembrar, escreveu há quase 200 anos. Naquele tempo, uma mulher infeliz deveria conformar-se com a sua sorte. Ou, sendo muito atrevida, correr atrás de um homem que lhe oferecesse outra existência. Não havia possibilidade de aventurar-se sozinha.

Se vivesse hoje em dia, Júlia mandaria o casamento às favas, faria uma grande viagem, mudaria de vida e de emprego e talvez achasse no processo um homem com quem quisesse ter um filho. Ou não. O romantismo da personagem de Balzac poderia ser vivido apenas como sexo e procriação. Hoje, o romantismo feminino pode tomar qualquer forma: revolução existencial, divórcio, reinvenção profissional, aventura ou mesmo maternidade.

Tudo isso, porém, são reações. Mais importante, eu acho, é o motivo que está por trás delas desde o tempo de Balzac - a crise dos 30.

Na minha experiência, o que acontece com as mulheres ao redor dos 30 anos é o surgimento de um limite que antes não estava lá. A data marca simbolicamente o fim da juventude e o começo irrevogável da idade adulta. Há grandes decisões a serem tomadas. Filhos é uma delas, mas não só. Existe a carreira. O estilo de vida. A relação com o parceiro. Os planos de morar fora. As ambições que serão adiadas, esquecidas ou abraçadas. Existem várias maneiras de ser mulher e é preciso escolher uma delas.

Em comparação, a vida dos homens parece linear. As escolhas são simples. Ainda não existe, culturalmente, muitas maneiras de ser homem. Há uma só. Escolhemos a profissão, mergulhamos no trabalho, achamos uma mulher e nos juntamos a ela. Às vezes temos filhos, outras vezes, não. Mas a vida segue, sem sobressaltos. Aos 30, aos 40, aos 50 anos. As crises masculinas são externas, induzidas pelo desemprego, pela doença, pelo fim dos relacionamentos.

As mulheres, como muitos já sentiram na pele, têm crises autônomas, alimentadas por suas próprias aspirações. Pela sua poesia, diria Balzac. Ela provoca erupções silenciosas e decisões intempestivas. O romantismo - num sentido amplo, e não somente erótico - carrega as mulheres para fora dos namoros, dos casamentos, dos empregos e dos países. Há nelas um desejo amplo de realização que nos homens parece estar simplificado na combinação de trabalho e família. É como se nós já soubéssemos o que a vida nos reserva, enquanto as mulheres precisariam descobrir do zero como viver as suas - e os 30 anos assinalam um momento dramático de definição.

Muitas mulheres, lendo isso, rirão das minhas especulações. Homens angustiados e complexos tampouco irão se reconhecer nesse desenho simplificado. Seres humanos diferem, naturalmente. Um homem pode ter mais em comum com uma mulher do que com outros homens. Naturalmente. Mas isso não impede que haja tendências e histórias que se repetem através dos anos, e a crise feminina por volta dos 30 é uma delas.

Como homem, o que fazer diante dessa crise? Não sei. Como agir se ela atingir a mulher que você ama? Eu bem que gostaria de saber.

O que eu acho - apenas acho - é que honestidade e conhecimento de si mesmos são essenciais. Na hora do pânico e da solidão, somos capazes de gestos heroicos que não significam nada. São pirotecnia emocional vazia. Espetáculos para nós mesmos. As perguntas essenciais diante da crise da parceira são simples de elaborar e difíceis de responder com franqueza:

. Aquilo que você deseja é semelhante ao que ela parece desejar? Muitas vezes não é o caso.
. Você gosta da pessoa em que ela está se transformando? Frequentemente, não.

. O que você pode oferecer (como ser humano e companheiro, não como provedor) é suficiente para fazê-la feliz? Você me diga, leitor.

Às vezes, mesmo em situações que nos são caras, não podemos fazer nada além de declarar nosso amor e torcer. A crise dos 30 talvez seja uma delas. Você vê a mulher que você ama afastar-se e torce para que ela volte. Se isso for impossível, tenta desejar que ela seja feliz. O que mantém as pessoas apaixonadas através do tempo e das crises - nós sabemos - são projetos e planos comuns. Na ausência deles, existe apenas o nosso sentimento. Ele é lindo, mas não basta. Não diante de uma mulher em ebulição.

Ivan Martins