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quinta-feira, 22 de junho de 2017

O que grita dentro de nós...



Diante do auditório lotado, o professor de psicanálise fala do inconsciente, usando um exemplo do cotidiano: o rapaz se aproxima da moça, que tem a intenção de fazer-se difícil. Mas, assim que ele começa a falar, ela enrubesce, e, quando tenta responder, gagueja. Talvez o rapaz não perceba, mas a conquista que ele almeja já aconteceu. O comportamento involuntário dela é uma confissão de interesse.

Sentado na terceira fila do auditório, ouvindo a palestra, me ocorre que o amor – aquilo que o professor freudiano chama de desejo – é sempre uma confissão. Uma confissão de insuficiência.


Eu, pessoa inteira e autônoma, confesso que a sua presença me perturba e gratifica. Mesmo temeroso, confesso que desejo que você partilhe o meu corpo, meus sentimentos e minha vida, ainda que isso perturbe a minha estabilidade. Quando você for embora, ou, mesmo ao meu lado, deixar de me olhar com olhos apaixonados, confesso que pensarei em morrer, e que meu luto cobrirá a cidade como chuva gelada. Confesso, por fim, que, tendo amado você, jamais deixarei de amar, ainda que use outras palavras e outros sentimentos para esconder o que sinto.

Vivemos, entretanto, num mundo de pessoas orgulhosamente autônomas. Nossos atos confessam, mas nós relutamos em dizer que sentimos. Homens e mulheres se gabam da sua capacidade inesgotável de estar sozinhos. Nada nos embaraça mais do que nos confessarmos dependentes, e nada embaraça mais o outro do que ouvir essa confissão. Aprendemos que certas coisas não se dizem.

Mas é uma pena que seja assim, porque confissões apaixonadas gritam dentro de nós. A gente olha a pessoa, ou toca os seus cabelos, e um torvelinho de palavras pede passagem – e tem de ser energicamente reprimido. Apenas em meio à paixão do sexo as confissões nos escapam. Dizemos “eu te amo” sufocando de prazer. Na cama há liberdade para dizer tudo e qualquer coisa.

Em pleno controle dos sentidos, temos dificuldade em confessar que amamos até para nós mesmos. As emoções estão lá, mas olhamos para o outro lado. O potencial de sofrimento, afinal, é imenso. A gente sabe que o amor expõe nossas vulnerabilidades. Cedo ou tarde ele cobrará meia libra de carne (nossa carne) pela alegria que nos deu. Sentamos, portanto, sobre a nossa comoção e silenciamos – esperando pelo dia em que sentimento, clareza e coragem nos cheguem juntos.

Enquanto isso, professamos e confessamos apenas amor por nós mesmos. Ao nosso trabalho, nossa casa, nossos lindos animais domésticos. Essas coisas não nos ameaçam nem revelam nossa insuficiência. Elas tampouco nos gratificam com o prazer de amar e dizer isso: de olhos abertos, de todo o coração, com todas as letras.

Ivan Martins
 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Quanta felicidade eu aguento...



"Te desejo toda a felicidade que puder aguentar". Foi com essa frase que uma pessoa que gosta muito de mim encerrou seu e-mail, e fiquei petrificada diante do computador, um pouco pela explosão de gentileza de alguém que nem conheço, e outro tanto pela contundência que me fez pensar: quanta felicidade eu aguento?
Felicidade não tem a ver com oba-oba, riso frouxo, vida ganha. Isso é alegria, que também é ótima, mas não tem a profundidade de uma felicidade genuína que engloba não só a alegria como a tristeza também. Felicidade é ter consciência de que estar apto para o sentimento é um privilégio, e que quando estou melancólica, nostálgica, introvertida, decepcionada, isso também é uma conexão com o mundo, isso também traz evolução, aprendizado.

Feliz de quem cresce, mesmo aos trancos.

Infelicidade, ao contrário, é inércia. A pessoa pode passar a vida inteira sem ter sofrido nada de relevante, nenhuma dor aguda, mas atravessa os dias sem entusiasmo, anestesiada pelo lugar comum, paralisada por seu olhar crítico, que julga os outros sem nenhuma condescendência. Para ela todos são fracos, desajustados ou incompetentes, e não sobra afetividade nem para si mesma: se está sozinha ou acompanhada, tanto faz. Se lá fora o sol brilha ou se chove, tanto faz. Se há a expectativa de uma festa ou de uma roubada, tanto faz. Essa indiferença em relação ao que os dias oferecem é uma morte que respira, mas ainda assim, uma morte.

Eu reajo, me movo, procuro, arrisco - essa perseguição a algo que nem sei se existe é a homenagem que presto à minha biografia. Nada me amortece, tudo me liga, tanto aquilo que dá certo como também o que dá errado. Felicidade é uma palavrinha enjoada, que remete só ao bom, mas dou a ela outro significado: é uma inclinação corajosa para a vida, que nunca é só boa.

Martha Medeiros

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Seja Feliz...





Um dia qualquer, pode ser quarta-feira na hora do almoço, seu ex-marido telefona para contar que está namorando. Talvez ele mande uma mensagem de celular ou um e-mail. Não faz diferença. Você recebe a notícia e, instantaneamente, as imagens ao seu redor saem de foco. Você respira fundo, tenta se recompor, mas a voz da pessoa com quem está almoçando vai ficando cada vez mais longe. Por alguns segundos, você ouve apenas o seu próprio batimento cardíaco, sangue pulsando com som estereofônico nos ouvidos. Acha que vai desmaiar. É uma sensação assustadora, que, ainda bem, desaparece como veio. Então você se ajeita na cadeira, retoma a conversa, e, penosamente, começa a viver sua nova realidade.

Quanto tempo faz desde a separação – um ano, oito meses? Você já deveria estar preparada. Ele é um cara legal, bonito, afetuoso, uma hora aconteceria. Claro, vocês andaram trocando mensagens no final do ano, ele ficou com o seu cachorro durante as férias, talvez você achasse que as coisas estavam de alguma forma se ajeitando. Mas não.

Em todo esse tempo, repare, ele nunca tentou tocar em você, nunca a convidou para fazer nada romântico. Ele a procurava de vez em quando, é verdade, mas sempre para falar dos problemas que o afligiam no trabalho, na família, nas relações com os amigos. Você confundiu a intimidade que persistia entre vocês com alguma forma de romance, mas não era o caso. O romance estava guardado para outro alguém, que pelo jeito apareceu.

Não há o que censurar, você bem sabe. Durante esse tempo você também esteve tentando, procurando, se divertindo. Gostou daquele cara tatuado – lembra? -, mas ele não quis mais sair. Houve aquele outro, do beijo no meio do jantar. Você jurava que iria rolar, mas não. Antes de sentir-se vítima das circunstâncias ou das pessoas, lembre dos homens que você esnobou. Eles ligavam, procuravam, persistiam, mas com eles você não queria nada. Faltava química, vontade de rever, saudades. Senão você estaria namorando.

A verdade é que você não se apaixonou desde a separação. Ele se apaixonou. Não há injustiça.

Sua analista deve ter razão naquela conversa sobre tempo. Você acha que está pronta para recomeçar, mas algo dentro de você diz que não. O tempo da subjetividade não é o tempo do calendário. Você gostaria de apressar as coisas, amar de novo, silenciar o relógio biológico, deixar de pensar no desgraçado. Mas não. Você tem algo a aprender nesta casinha antes de avançar para a próxima. Pare de reclamar e tente descobrir do que se trata.

É muito fácil – fácil demais, na verdade – dizer a você mesma que é louca por ele e que por isso a sua vida não avança. Mas será verdade? Se você for absolutamente honesta, terá de admitir que seus sentimentos não são claros. Você não tem mais certeza. Desde a separação aconteceu tanta coisa. Sua vida mudou tanto. Tantas pessoas entraram e saíram. Em muitos dias você se sente mais bonita, mais animada, vivendo mais a vida do que antes. Obviamente, sente falta de amar e ser amada, mas isso significa, realmente, que ainda ama o seu ex?

Sua amiga mais querida disse o óbvio: a novidade pode lhe fazer bem. Saber que ele está em companhia de outra mulher - transando, fazendo planos, rindo baixinho na fila do cinema, de mãos dadas na avenida Paulista – pode ser libertador. Talvez assim se rompa o vínculo subjetivo que vocês dois insistem em manter. A notícia de que ele está namorando pode permitir que os sentimentos aflorem na direção de outros caras. O fim de uma ilusão pode ser o começo de alguma outra coisa.

Por favor, por favor, não vá transformar o telefonema dele em mais um motivo para acreditar em coisas que não existem. Ele foi gentil, apenas isso. É o jeito dele. Não queria que você soubesse por outras pessoas, não queria que fosse magoada por fofocas. Disse que você não conhece a moça, que ela não é do convívio de vocês. Melhor assim. Se ele não a procurou pessoalmente para dar a notícia, o que isso significa? Nada. Apenas uma decisão dele, quem sabe uma ambiguidade. Mas o gesto dele é inequívoco: está escolhendo outra mulher, mesmo sabendo que seria acolhido se voltasse a você. O que as pessoas acham que sentem não tem importância. Importante é como elas agem, e ele agiu com absoluta clareza.

No dia da conversa ao telefone, você desejou que ele fosse feliz. Estava desnorteada, é verdade, mas a frase espontânea não foi uma mentira, nem mesmo uma bravata. Era dolorida, mas verdadeira. Claro que você tem ciúmes, mas você não quer que ele se perca por aí, como tanta gente. Pelo contrário. De alguma forma, você sabe que a sua capacidade de ser feliz implica em aceitar, genuinamente, que ele viva bem a vida dele. Se você ficar presa a ele por algum sentimento ruim, isso vai atrapalhar a sua vida, não a dele. Você sabe.

“Seja feliz”, você disse a ele. Fez muito bem. Agora, com toda sinceridade, com amor, repita a frase para você mesma. Seja feliz, cuide-se, trate-se, descubra quais são e onde estão os seus desejos. Use essa oportunidade para alçar voo. Ache em você energia para mudar a sua vida, para obter aquilo com que sonha, para encontrar um amor para a próxima década, até 2027. O amor de ontem, infelizmente, não existe mais. Quer dizer: ele existe, mas mudou de destinatária. Agora, é sua vez de reendereçar o seu amor e começar de novo. A melhor maneira de fazer isso, talvez a única maneira, é desejando com a sinceridade possível que seu ex-amor seja feliz - tão feliz quanto foi com você, ou ainda mais.
Ivan Mrtins