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terça-feira, 21 de junho de 2011

Quem é dono de quem?

 
Segundo os especialistas em psicologia social, o ser humano é dotado de seis diferentes tipos de amor: altruísta, romântico, lúdico, pragmático, possessivo e cooperativo. Acredito que um dos tipos de amor mais perigoso é o amor possessivo - aquele que aprisiona, conduz, direciona as emoções conforme a sua vontade e determinação. Pior do que isso, de acordo com a sua visão de amor. Uma pessoa que entende o outro como propriedade é incompetente para construir qualquer relação. Ela é portadora do amor que sufoca, que angustia. É o amor dependente, que só se satisfaz com a total dedicação do(a) parceiro(a) em todas as situações, desde as mais simples até as mais complexas. É o amor egoísta, chantagista, que torna o relacionamento pesado e tóxico.

É claro que ninguém saberá como vai agir diante do amor já que este foge a regras e explicações, também é improvável que alguém consiga medir a intensidade dos seus sentimentos e tente equilibrá-la para mais ou para menos a fim de atingir um nível satisfatório ou ideal, que não fira a liberdade do(a) parceiro(a). Porém, quando as coisas começam a se desenhar desarmônicas é chegada a hora de racionalizar até que ponto as próprias atitudes estão soando invasivas na vida do outro e prejudicando a estabilidade do relacionamento. Tudo começa com as desconfianças, seguidas de cobranças, até chegar ao controle absoluto da rotina do outro, tornando-se normal a inquirição sufocante e incômoda sobre as ações e reações do(a) parceiro(a) em todas as suas relações: sejam elas afetivas ou profissionais.

É o cotidiano o responsável pelas divergências que começam a surgir, dando vazão a discussões, desgaste e decepção. Cobra-se pelo atraso para chegar em casa, pelo jantar que não foi como o esperado, por não ter atendido o celular, pela falta do carinho de antes, pelo encontro com os amigos até mais tarde, pelo que postou na rede social a um(a) amigo(a), pela música que resolveu ouvir sozinho(a) e por tantas outras motivações que acabam ofuscando os sentimentos. Quem não se sente seguro numa relação afetiva tende a policiar todo e qualquer acontecimento que envolva a sua cara-metade. No menor sinal de "perigo" haverá uma reação negativa diante da pessoa (e daquilo) que se quer preservar. E se não houver um esclarecimento plausível (por parte do "acusado"), a partir desse momento, qualquer passo divergente do habitual será motivo para cobranças imediatas, seguidas de chantagens e mais desconfianças.

Normalmente, as pessoas que agem dessa maneira são aquelas que se dão por inteiro à relação e passam a viver somente para aquela história, para aquela pessoa, sufocando a si e ao outro num espaço onde não cabe mais nada, a não ser os dois. Ela abdica dos seus gostos, dos prazeres antigos, da sua opinião e das amizades em nome de uma realidade que foi rabiscada com traços exclusivos para serem seguidos à risca, segundo as suas expectativas. Sequer percebe que essas expectativas podem não ser recíprocas. Ela esquece que ambos possuem jeitos, quereres e temperamentos oblíquos, que não há por que comungarem da mesma maneira. Ela não percebe ainda que não é o patrulhamento diário que garantirá o futuro da relação. Sobretudo, ela se recusa a ver que sentimento não se impõe, conquista-se no dia a dia.

Se o outro, que a essa altura, já mudou o comportamento por questões impostas não estiver disposto a entender o que está acontecendo e procurar resolver o impasse à custa de muito diálogo, desatando os nós das desconfianças, fatalmente, esse amor estará fadado ao fracasso. Num primeiro momento, poderá investir no relacionamento com justificativas e tolerância, mas a tendência é que se canse das exigências comportamentais do inseguro e assuma uma personalidade fria e distante, assassinando, aos poucos, a relação. E entram aí o silêncio, a desilusão, a falta de perspectiva futura, até o incontestável fim daquilo que poderia ser uma doce e estável história de amor.

Dividir o mesmo espaço e ter os mesmos desejos não significa controlar, orientar, manipular as atitudes do(a) parceiro(a). Não bastam cumplicidade e amor, faz-se necessário confiança e liberdade para ir e vir. É bom olharmos para as nossas atitudes e percebermos até onde estamos indo, se as nossas ações não estão interferindo na vida social de quem está ao nosso lado. Quem manipula é desprovido de amor próprio, gera conflitos internos e fica deprimido. Quem ama possessivamente cai, mais cedo ou mais tarde, numa esfera vazia, perene; num labirinto sem saída. Ligue-se, confira-se, execute-se! Não permita o fechamento do capítulo da sua história à outra pessoa, mas não queira ser você o(a) autor(a) do término da história dela. Não coloque em mãos alheias a obrigação pela sua estabilidade emocional. Ninguém nos completará em plenitude (e nem por todo o tempo). O nosso equívoco está em querer personificar as emoções e não em senti-las espontaneamente. Pense nisso!

Por Afrodite para Maiores

Um comentário:

  1. "Sê paciente;
    espera que a palavra amadureça
    e se desprenda como um fruto
    ao passar o vento que a mereça."

    (Eugénio de Andrade)

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