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domingo, 27 de novembro de 2016

Quem gosta, mostra...



Lembro perfeitamente da frustração: eu encantado pela moça e ela me driblando, por quase um mês. O primeiro encontro fora perfeito, mas nunca mais se repetiu. Ela se dizia ansiosa para me ver, mas sempre arrumava uma nova desculpa para adiar. Um dia, cansei das explicações, da incerteza e do desapontamento. Apesar da atração que sentia por ela, cortei a comunicação e nunca mais nos falamos.
Essa experiência marcante deu forma a um princípio que tento seguir à risca: relações amorosas começam de forma simples e recíproca, ou nem começam. Acredito que os sentimentos se expressam de maneira clara. Quem gosta, mostra. Quando as coisas são emocionalmente claras, os atos são simples. Quem está hesitando, enrolando ou adiando, é porque não sabe o que sente – e poucas coisas são mais dolorosas do que se envolver com quem não sabe o que quer.
Vale o mesmo para a reciprocidade. Se você está perdidamente apaixonada e a pessoa parece mais interessada na tela do celular, cuidado – esse costuma ser o preâmbulo de uma roubada. Gente que começa desinteressada pode virar a pessoa mais apaixonada do mundo, mas as chances são remotas. Atração e conexão costumam ser instantâneas e recíprocas. Como alguém pode começar uma relação sem elas?
Escrevo essas obviedades porque nossas carências – e nossa arrogância – costumam ser fonte de dolorosa confusão. Resolvemos correr atrás de gente que não está nem aí para nós e insistimos em cortejar pessoas que não nos dão atenção. É fácil detectar nos olhos e na atitude do outro os sinais de desinteresse, mas fingimos de bobo e persistimos.
Desesperados de solidão e carência, acreditamos, arrogantemente, que seremos capazes de seduzir quem nos ignora ou nos quer apenas como amigo – embora seja mais fácil, e mais bonito, renunciar ao que jamais teremos.
Quando você desencana do outro, simplifica a sua vida e a dele. Permite que as energias fluam. Mas para isso é preciso entender, no fundo da alma, que não será amado desta vez. É necessário abrir mão. Aqueles olhos imensos não olharão você como você olha para eles. Aquele corpo não estará em suas mãos, da forma que desejou. Se formos capazes de aceitar, virar as costas e sair andando, tudo fica mais simples. Ao desistirmos de controlar o mundo, ele se torna um problema menor.
A verdade, nós sabemos, é que ninguém seduz ninguém. Atrações acontecem espontaneamente, inexplicáveis para quem as experimenta. A aproximação entre duas pessoas se faz por uma ponte invisível que está lá desde o começo. A gente anda sobre ela, mas não sabe do que ela é feita. E podemos descobrir, como na história que abre esse texto, que nem a ponte é suficiente: a pessoa está atraída, ou parece atraída, mas falta à vida dela a simplicidade que torna as coisas possíveis.
Uma das razões que levam as pessoas jovens a amar e se envolver com tanta frequência é a simplicidade das suas vidas. Os jovens são disponíveis por natureza. Conhecem alguém hoje, dormem juntos na mesma noite, namoram no dia seguinte e podem estar na mesma casa em um mês. Por que não? Jovens tendem a ser emocionalmente leves porque têm menos história e menos compromissos.
Compare a disponibilidade emocional de uma garota de 25 anos com a de uma mulher de 40, separada e com dois filhos. Agora, pense num cara solteiro de 28 anos. Imagine quando ele tiver 40 e for divorciado, pai de uma garota, e estiver brigando por dinheiro com a ex-mulher. Quem vai estar mais livre para se apaixonar?
As pessoas têm problemas de trabalho, vêm de famílias difíceis, sofrem de depressões, são vítimas de doenças. Há uma multidão de pessoas adoráveis que lida com grandes dificuldades, todos os dias. Não se pode esperar delas a simplicidade de quem chegou à vida ontem, com um sorriso nos lábios e uma mochila nas costas.
Como estamos num mundo em que as pessoas se casam várias vezes e levam com elas tudo o que fizeram nas vidas anteriores, é importante aprender a lidar com a complexidade. Se você não foi casado, pode se apaixonar por alguém que foi. Se você não tem filhos, seu próximo parceiro ou parceira pode ter. Se a sua vida é leve e solta, destituída de problemas, sorte sua, mas um monte de gente não vive assim – e nem por isso são menos interessantes.
Compreender isso é essencial, mas não muda o fato de que a simplicidade é necessária. Alguém, em algum momento, tem de esticar a mão para o outro, que deve segurá-la sem hesitação. No meio da confusão, um gesto tem de ser simples. Juntas, pessoas apaixonadas lidam melhor com as dificuldades da vida. Mas os sentimentos têm de ser claros e recíprocos. Ou não rola
Ivan Martins

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